Mediante uma
imagística que, buscando captar a atmosfera emocional do sujeito lírico – suas
dores e tristezas –, recorre a elementos do mundo natural, o poeta gaúcho imerge
no universo lírico e melancólico de um amor não correspondido, uma experiência
afetiva marcada pela desilusão que bem reflete a memória de um sentimento
perdido.
Os salgueiros
inclinados sobre as águas de um açude são o mais evidente marco do cenário
então idealizado, recordando-nos do fluir incessante da vida e da passagem
inexorável do tempo: entre nébulas de uma aura nostálgica e etérea, revolvem-se
as recordações de feridas não curadas pelo transcurso das horas, transigindo-se
sobre a incerteza e o enigma dos frágeis sentimentos humanos.
J.A.R. – H.C.
Augusto Meyer
(1902-1970)
A elegia dos
salgueiros
Há nuvens róseas
sobre a colina.
A tarde é loura.
Folhas caíam dos
plátanos, girando
em remoinhos na poeira.
Os chorões são como
prantos de folhagem,
como um gesto verde
sobre as águas lisas,
uma bênção de
folhas...
Na mesma tarde loura,
há muitos anos,
eu amei os teus olhos
de águas lisas,
eu fiquei debruçado,
pensativamente,
como um salgueiro
sobre as águas de um açude,
como um salgueiro –
sobre a tua vida.
E eras indiferente
como as águas.
Mas eu vira o meu
reflexo, trêmulo, trêmulo,
a ilusão da minha dor
na tua alma.
E passavas, e fugias
como as águas.
Mas eu ouvira, entre
os ramos verdes,
as canções de
esperança;
era o meu sonho
deixar nas águas mansas
cair a oferta
silenciosa das folhas.
E sorrias, e passavas
como as águas.
Vai longe, no além, a
tarde loura;
folhas caíam dos
plátanos, girando
em remoinhos, na
poeira.
Olhos os salgueiros,
numa cisma que flutua
sobre as águas do
mistério...
Alguma cousa
misteriosa
vai levando a nossa
vida como as folhas
sobre as águas...
Salgueiro-chorão e
nenúfares
(Lynne Albright:
artista norte-americana)
Referência:
MEYER, Augusto. A elegia
dos salgueiros. In: AYALA, Walmir (Seleção e organização). Poemas de amor:
Shakespeare, Camões, Machado, Florbela, Lorca e outros 115 poetas de ontem
e de hoje. Edição revista e atualizada por André Seffrin. 4. ed. Rio de
Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2022. p. 41-42. (“Histórias de Amor”)
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