Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Augusto Meyer - A elegia dos salgueiros

Mediante uma imagística que, buscando captar a atmosfera emocional do sujeito lírico – suas dores e tristezas –, recorre a elementos do mundo natural, o poeta gaúcho imerge no universo lírico e melancólico de um amor não correspondido, uma experiência afetiva marcada pela desilusão que bem reflete a memória de um sentimento perdido.

 

Os salgueiros inclinados sobre as águas de um açude são o mais evidente marco do cenário então idealizado, recordando-nos do fluir incessante da vida e da passagem inexorável do tempo: entre nébulas de uma aura nostálgica e etérea, revolvem-se as recordações de feridas não curadas pelo transcurso das horas, transigindo-se sobre a incerteza e o enigma dos frágeis sentimentos humanos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Meyer

(1902-1970)

 

A elegia dos salgueiros

 

Há nuvens róseas sobre a colina.

A tarde é loura.

Folhas caíam dos plátanos, girando

em remoinhos na poeira.

 

Os chorões são como prantos de folhagem,

como um gesto verde sobre as águas lisas,

uma bênção de folhas...

 

Na mesma tarde loura, há muitos anos,

eu amei os teus olhos de águas lisas,

eu fiquei debruçado, pensativamente,

como um salgueiro sobre as águas de um açude,

como um salgueiro – sobre a tua vida.

 

E eras indiferente

como as águas.

Mas eu vira o meu reflexo, trêmulo, trêmulo,

a ilusão da minha dor na tua alma.

 

E passavas, e fugias

como as águas.

 

Mas eu ouvira, entre os ramos verdes,

as canções de esperança;

era o meu sonho deixar nas águas mansas

cair a oferta silenciosa das folhas.

 

E sorrias, e passavas

como as águas.

 

Vai longe, no além, a tarde loura;

folhas caíam dos plátanos, girando

em remoinhos, na poeira.

 

Olhos os salgueiros, numa cisma que flutua

sobre as águas do mistério...

 

Alguma cousa misteriosa

vai levando a nossa vida como as folhas

sobre as águas...

 

Salgueiro-chorão e nenúfares

(Lynne Albright: artista norte-americana)

 

Referência:

 

MEYER, Augusto. A elegia dos salgueiros. In: AYALA, Walmir (Seleção e organização). Poemas de amor: Shakespeare, Camões, Machado, Florbela, Lorca e outros 115 poetas de ontem e de hoje. Edição revista e atualizada por André Seffrin. 4. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2022. p. 41-42. (“Histórias de Amor”)

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