O poeta mineiro
oferece-nos um recordatório de que nossa existência deve ser medida não pelo
que acumulamos em bens materiais, senão pela maneira como elevamos nosso
espírito em direção à beleza, à grandeza, digo melhor, às esferas do
transcendente, polindo a alma para que venha a expressar o que nela há de
essencial – o encanto de cada ser.
Mirar para além das
aparências, pois o que realmente importa não pode ser mensurado nem possuído,
senão sentido e vivenciado na livre possibilidade de expandir-se, de voar bem
acima do tangível ou do utilitário, onde se fixam indeléveis as marcas de nossa
autenticidade, a luz metafórica de nossos rastros a iluminar o caminho dos que nos
são pósteros.
J.A.R. – H.C.
José Maria Pereira
(1948-2011)
Sobretudo a Essência
o belo da ave
não está na cor
nem está nas curvas
porém no voo
a ave mais bela
é a ave
que voa em curvas
porém voa
a ave que voa
em seta
marca a reta
vence a ausência
há marca no voo
da ave
quando a ave voa
e fica a nuvem
fica a alma
da ave luz
quando a ave voa
na sombra
no voo da ave
não medir o corpo
medir a arma
– seu estouro
não medir a ave
pela moeda
medir sua alma
de ouro
a moeda não voa
porém marca
medir a arca
do Sol
não doa a chuva
para a ave
nem doa a noite
porém a luz
doa o espaço
para o voo
doa o palácio
para a ave
não medir
a plumagem da ave
nem medir
o corpo: sua chave
medir o canto
da ave – sua essência
medir o encanto
do voo – sua ausência
Voo de pássaros
(Alla A. Volkova:
artista letã)
Referência:
PEREIRA, José Maria.
Sobretudo a essência. In: CURVELLO, Aricy et alii. Voo vetor: antologia.
São Paulo, SP: Editora do Escritor, 1974. p. 77-78. (‘Coleção do Poeta’; v. 8)
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