O poeta colombiano,
figura central do Modernismo hispano-americano, voga pelo prolífico mar das
águas metapoéticas, para tecer encômios ao poder transformador da poesia, recurso
idôneo a converter o quotidiano em algo sublime, por intermédio de um processo alquímico
no qual a linguagem passa a albergar, transmutado em beleza, um breviário dos humanos
pesares.
Não sendo meramente
um exercício formal ou decorativo, a poesia, com efeito, decanta em palavras a
essência de nossas experiências, recordações e emoções, legando aos pares um relato
do que se passa de mais autêntico nos escaninhos da mente do poeta. Daí porque o
emprego da imagem de um “vaso santo” com que se equipara o verso de um poema:
trata-se de uma espécie de recipiente em que se recolhe apenas o sumo de “pensamentos
puros”.
J.A.R. – H.C.
José Asunción Silva
(1865-1896)
Ars
El verso es un vaso
santo; poned en él tan sólo
un pensamiento puro,
en cuyo fondo bullan
hirvientes las imágenes
como burbujas de oro
de un viejo vino oscuro.
Allí verted las
flores que en la continua lucha
ajó del mundo el
frío,
recuerdos deliciosos
de tiempos que no vuelven,
y nardos empapados de
gotas de rocío.
Para que la
existencia mísera se embalsame
cual de una esencia
ignota,
quemándose en el
fuego del alma enternecida,
de aquel supremo
bálsamo, ¡basta una sola gota!
Rosa com gotas de
orvalho
(Irina Sztukowski:
artista russa)
Ars
O verso é vaso santo;
ponde nele somente
um pensamento puro,
em cujo fundo tremam
ferventes as imagens
como borbulhas de
ouro em velho vinho escuro.
Ali vertei as flores
que na contínua luta
magoou do mundo o
frio,
deliciosas lembranças
de tempos que não voltam,
e nardos embebidos de
gotas de rocio.
Para que a mísera existência
se embalsame
como de essência
ignota,
queimando-se no fogo
da alma compadecida,
desse supremo bálsamo
basta só uma gota!
Referência:
ASUNCIÓN SILVA, José.
Ars / Ars. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: FERREIRA,
Aurélio Buarque de Holanda (Seleção e tradução). Grandes vozes líricas
hispano-americanas. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira,
1990. Em espanhol: p. 164; em português: p. 165. (Coleção “Poesia de Todos os
Tempos”)
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