Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Jorge Luis Borges - O suicida

Na elocução minimalista de um potencial suicida, tem-se aqui o falante a expressar um niilismo filosófico basal, por meio do qual se vislumbra uma perspectiva de terra arrasada sobre o hipotético significado de sua presença – ou, mais extensivamente, até mesmo da própria humanidade – sobre a face da Terra, do que resultaria nada mais que o legado do “nada a ninguém”.

 

A seu ver, vãs seriam as nossas construções, inúteis inclusive os elementos mais estáveis – como as estrelas ou mesmo a noite –, haja vista que, em seu propósito, tudo deveria ser aniquilado – o tempo, a história e o espaço –, numa amplitude de eliminação levada às suas últimas consequências, ao abismo da rarefação, onde muito a custo o pó restasse como resíduo do universo em ruínas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Luis Borges

(1899-1986)

 

El suicida

 

No quedará en la noche una estrella.

No quedará la noche.

Moriré y conmigo la suma

Del intolerable universo.

Borraré las pirámides, las medallas,

Los continentes y las caras.

Borraré la acumulación del pasado.

Haré polvo la historia, polvo el polvo.

Estoy mirando el último poniente.

Oigo el último pájaro.

Lego la nada a nadie.

 

En: “La rosa profunda” (1975)

 

A travessia do vazio

(Paolo Amoretti: artista italiano)

 

O suicida

 

Não restará na noite uma estrela.

Não restará a noite.

Morrerei, e comigo a soma

Do intolerável universo.

Apagarei as pirâmides, as medalhas,

Os continentes e os rostos.

Apagarei a acumulação do passado.

Farei da história pó, o pó em pó.

Estou mirando o último poente.

Ouço o último pássaro.

Lego o nada a ninguém.

 

Em: “A rosa profunda” (1975)

 

Referência:

 

BORGES, Jorge Luis. El suicida / O suicida. Tradução de Josely Vianna Baptista. In: __________. Poesia. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2009. Em espanhol: p. 508; em português: p. 172. (“Biblioteca Borges”)

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