Na elocução
minimalista de um potencial suicida, tem-se aqui o falante a expressar um
niilismo filosófico basal, por meio do qual se vislumbra uma perspectiva de
terra arrasada sobre o hipotético significado de sua presença – ou, mais extensivamente,
até mesmo da própria humanidade – sobre a face da Terra, do que resultaria nada
mais que o legado do “nada a ninguém”.
A seu ver, vãs seriam
as nossas construções, inúteis inclusive os elementos mais estáveis – como as
estrelas ou mesmo a noite –, haja vista que, em seu propósito, tudo deveria ser
aniquilado – o tempo, a história e o espaço –, numa amplitude de eliminação levada
às suas últimas consequências, ao abismo da rarefação, onde muito a custo o pó restasse
como resíduo do universo em ruínas.
J.A.R. – H.C.
Jorge Luis Borges
(1899-1986)
El suicida
No quedará en la
noche una estrella.
No quedará la noche.
Moriré y conmigo la
suma
Del intolerable
universo.
Borraré las pirámides,
las medallas,
Los continentes y las
caras.
Borraré la
acumulación del pasado.
Haré polvo la
historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el
último poniente.
Oigo el último
pájaro.
Lego la nada a nadie.
En: “La rosa
profunda” (1975)
A travessia do vazio
(Paolo Amoretti: artista
italiano)
O suicida
Não restará na noite
uma estrela.
Não restará a noite.
Morrerei, e comigo a
soma
Do intolerável
universo.
Apagarei as
pirâmides, as medalhas,
Os continentes e os
rostos.
Apagarei a acumulação
do passado.
Farei da história pó,
o pó em pó.
Estou mirando o
último poente.
Ouço o último
pássaro.
Lego o nada a
ninguém.
Em: “A rosa profunda”
(1975)
Referência:
BORGES, Jorge Luis.
El suicida / O suicida. Tradução de Josely Vianna Baptista. In: __________. Poesia.
Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo, SP: Companhia das Letras,
2009. Em espanhol: p. 508; em português: p. 172. (“Biblioteca Borges”)
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário