O poeta celebra o
poder do amor como refúgio diante das incertezas e das turbulências da vida,
numa paixão que atua como âncora diante da inclemência do metafórico “vento”, símbolo
das mudanças e das forças incontroláveis que varrem os nossos dias, convertendo-os
numa voragem sob a qual se torna improvável alcançar algum momento de quietude ou
de manter laços afetivos saudáveis.
Afinal, proteção e
estabilidade parecem não ser os atributos mais frequentes com que nos deparamos
ao longo de nossa jornada: então, como o enfatiza Neruda, que o amor seja bem esse
arrimo capaz de nos oferecer um porto seguro, suficientemente resistente às
torrentes externas, colocando-nos ao abrigo de tais avassaladoras energias –
ainda que seja apenas por instantes!
J.A.R. – H.C.
Pablo Neruda
(1904-1973)
El viento en la isla
El viento es un
caballo:
óyelo cómo corre
por el mar, por el
cielo.
Quiere llevarme:
escucha
cómo recorre el mundo
para llevarme lejos.
Escóndeme en tus
brazos
por esta noche sola,
mientras la lluvia
rompe
contra el mar y la
tierra
su boca innumerable.
Escucha cómo el
viento
me llama galopando
para llevarme lejos.
Con tu frente en mi
frente,
con tu boca en mi
boca,
atados nuestros
cuerpos
al amor que nos
quema,
deja que el viento
pase
sin que pueda
llevarme.
Deja que el viento
corra
coronado de espuma,
que me llame y me
busque
galopando en la
sombra,
mientras yo,
sumergido
bajo tus grandes
ojos,
por esta noche sola
descansaré, amor mío.
En: “Los versos del
capitán” (1952)
O vento na ilha
(Cristina Dalla
Valentina: artista italiana)
O vento na ilha
O vento é um cavalo:
ouça-o como corre
pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escute
como atravessa o
mundo
para me levar embora.
Esconda-me em seus
braços
por esta noite apenas,
enquanto a chuva desata
a sua boca inumerável
contra o mar e a
terra.
Escute como o vento
me chama num galope
para me levar embora.
Com a sua fronte em
minha fronte,
com a sua boca em
minha boca,
unidos nossos corpos
ao amor que nos
queima,
deixe o vento passar
sem que me possa
levar.
Deixe o vento correr
coroado de espuma,
que me chame e me
procure
a galopar na sombra,
enquanto eu, submerso
sob seus grandes
olhos,
por esta noite apenas,
descansarei, meu
amor.
Em: “Os versos do
capitão” (1952)
Referência:
LIMA, José Lezama. El
viento en la isla. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos.
Selección y prólogo de Francisco Serrano. 1. ed.
México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 115. (Coedición “Latinoamericana”)
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