Celan visitou Assis,
na região italiana da Úmbria, juntamente com sua esposa Gisèle Celan-Lestrange
(1927-1991), em 1953 – poucas semanas após a trágica morte do filho François –,
tendo redigido o presente poema dois anos depois, em 1955, bem ao seu
característico estilo – criptográfico e carregado de simbolismos –, tendo por
temática o lugar onde nasceu (e morreu) o frade fundador da ordem que mais
tarde tomou o seu nome – Francisco de Assis (~1181-1226).
Os versos do poeta romeno
evocam a mensagem de humildade, de vida simples e de compaixão para com todos
os seres, especialmente os mais pobres, bem assim os animais, apregoada por
Francisco. Porém mais do que isso: na comovente descrição da vida de um lugar,
ressoa o desconforto com indagações sem respostas e que se fundem no insondável,
porquanto nada mais somos do que “jarro barroso com o selo da sombra”, somente cientes
da verdade por trás daquilo que nos desintegra – a saber, a morte.
J.A.R. – H.C.
Paul Celan
(1920-1970)
Assisi
Umbrische Nacht.
Umbrische Nacht mit
dem Silber von Glocke und Ölblatt.
Umbrische Nacht mit
dem Stein, den du hertrugst.
Umbrische Nacht mit
dem Stein.
Stumm, was ins Leben
stieg, stumm.
Füll die Krüge um.
Irdener Krug.
Irdener Krug, dran
die Töpferhand festwuchs.
Irdener Krug, den die
Hand eines Schattens für immer
verschloβ.
Irdener Krug mit dem
Siegel des Schattens.
Stein, wo du hinsiehst,
Stein.
Laβ das Grautier ein.
Trottendes Tier.
Trottendes Tier im
Schnee, den die nackteste Hand streut.
Trottendes Tier vor
dem Wort, das ins Schloβ fiel.
Trottendes Tier, das
den Schlaf aus der Hand friβt.
Glanz, der nicht
trösten will, Glanz.
Die Toten – sie
betteln noch, Franz.
Aus: “Von Schwelle zu
Schwelle” (1955)
Paisagem com São
Francisco de Assis
(Paul Bril: pintor
flamengo)
Assis
Noite úmbria.
Noite úmbria com a
prata do sino e folha de oliva.
Noite úmbria com a
pedra que trouxeste até aqui.
Noite úmbria com a pedra.
Mudo, o que veio à
vida, mudo.
Enche os jarros.
Jarro barroso.
Jarro barroso, onde a
mão do oleiro cresceu firme.
Jarro barroso, que
para sempre trancafiou a mão
de uma sombra.
Jarro barroso com o
selo da sombra.
Pedra, para onde
olhas, pedra.
Deixa entrar o asno.
Animal trotante.
Animal trotante na
neve, que a mais nua mão espalha.
Animal trotante
frente à palavra, que caiu presa.
Animal trotante, que
come o sono com a mão.
Brilho que não quer
consolar, brilho.
Os mortos – estes ainda
mendigam, Francisco.
Em: “De Limiar a
Limiar” (1955)
Referência:
CELAN, Paul. Assisi / Assis. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: __________. Cristal. Seleção e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue. 2. Reimp. São Paulo: Iluminuras, 2011. Em alemão: p. 56; em português: p. 57.
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