Neste poema que, de fato, diz respeito a um trecho da segunda seção de uma composição maior intitulada “Инония” (“Inonia”), em quatro seções, o poeta russo empreende, em matizes de inquietude e de presságio, um arrojado enfrentamento entre a tradição religiosa e a história russa: com tributos ao profeta Jeremias – uma figura bíblica associada a lamentos e a predições de destruição –, Iessiênin converte o “ladrido de sinos”, tradicional símbolo de fé e de coletividade, num sinal de alarme em relação a presumíveis rebeliões e transformações próximas.
Iessiênin expressa o
seu rechaço à influência da Igreja na vida russa e sua cumplicidade com o poder
político, haja vista que, a seu ver, as tradições religiosas transmutaram-se em
instrumento de controle, sob cujo domínio a espiritualidade do povo restou
descaracterizada por densos vestígios de dogmas e por rituais vazios.
Frise-se, por
oportuno, que Inonia, lugar citado no terceiro verso da quarta estância, diz
respeito a um sítio utópico criado pelo poeta, representando uma paragem onde a
“divindade dos vivos” habita, em contraste com as divindades mortas ou
distantes do passado.
J.A.R. – H.C.
Sierguéi Iessiênin
(1895-1925)
Лай колоколов над Русью грозный
Пророку Иеремии
Лай колоколов над Русью грозный –
Это плачут стены Кремля.
Ныне на пики звездные
Вздыбливаю тебя, земля!
Протянусь до незримого города,
Млечный прокушу покров.
Даже богу я выщиплю бороду
Оскалом моих зубов.
Ухвачу его за гриву белую
И скажу ему голосом вьюг:
Я иным тебя, господи, сделаю,
Чтобы зрел мой словесный луг!
Языком вылижу на иконах я
Лики мучеников и святых.
Обещаю вам град Инонию,
Где живет божество живых.
Проклинаю я дыхание Китежа
И все лощины его дорог.
Я хочу, чтоб на бездонном вытяже
Мы воздвигли себе чертог.
Плачь и рыдай, Московия!
Новый пришел Индикоплов.
Все молитвы в твоем часослове я
Проклюю моим клювом слов.
1918
Sol e Carrilhão
(Wayne Roberts: artista
australiano)
Um ladrido de sinos
sobre a Rússia
ao profeta Jeremias
Um ladrido de sinos
sobre a Rússia:
Choram os muros do Kremlin.
Hoje, com as lanças
das estrelas,
Te arrancarei do
chão, terra trêmula!
Distendido até a
cidade invisível
Perfurarei o lácteo
véu.
Até a Deus vou
beliscar a barba,
Mostrando os dentes
para o céu.
E lhe direi com voz
de vento,
Grudando-o pela
grenha alva:
Senhor, vou te fazer
diferente
Para florir meu campo
de palavras.
Lamberei com a língua
dos ícones
As máscaras dos
mártires lívidos.
Eu lhes prometo a
terra de Inonia
Onde vive a divindade
dos vivos!
Maldigo o respiro de Kitej(1),
Todos os vales do seu
mundo.
Quero erguer o nosso
castelo
Sobre a escavação sem
fundo.
Soluça e chora,
Moscóvia!
Um novo Indikoplóv(2)
se eleva!
Todas as rezas do teu
breviário
Rasgarei com meu bico
de palavras!
1918
Notas do Tradutor: (CAMPOS, 2006, p. 136,
n.r.)
(1). Kitej: cidade
legendária que, assediada pelas hordas tártaras, teria sido engolida pela
terra.
(2). Kosma Indikoplóv:
mercador do século VI, que se tornou monge em Alexandria e escreveu um tratado
cosmogônico, baseado na Bíblia.
Referências:
Em Russo
ЕСЕНИН, Сергей. Лай колоколов над Русью грозный. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 fev. 2026.
Em Português
IESSIÊNIN, Sierguéi. / Um ladrido de sinos sobre a Rússia. Tradução de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de (Seleção e tradução). Poesia da recusa. São Paulo, SP: Perspectiva, 2006. p. 135-136.
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