Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sierguéi Iessiênin - Um ladrido de sinos sobre a Rússia

Neste poema que, de fato, diz respeito a um trecho da segunda seção de uma composição maior intitulada “Инония” (“Inonia”), em quatro seções, o poeta russo empreende, em matizes de inquietude e de presságio, um arrojado enfrentamento entre a tradição religiosa e a história russa: com tributos ao profeta Jeremias – uma figura bíblica associada a lamentos e a predições de destruição –, Iessiênin converte o “ladrido de sinos”, tradicional símbolo de fé e de coletividade, num sinal de alarme em relação a presumíveis rebeliões e transformações próximas.

 

Iessiênin expressa o seu rechaço à influência da Igreja na vida russa e sua cumplicidade com o poder político, haja vista que, a seu ver, as tradições religiosas transmutaram-se em instrumento de controle, sob cujo domínio a espiritualidade do povo restou descaracterizada por densos vestígios de dogmas e por rituais vazios.

 

Frise-se, por oportuno, que Inonia, lugar citado no terceiro verso da quarta estância, diz respeito a um sítio utópico criado pelo poeta, representando uma paragem onde a “divindade dos vivos” habita, em contraste com as divindades mortas ou distantes do passado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sierguéi Iessiênin

(1895-1925)

 

Лай колоколов над Русью грозный

 

Пророку Иеремии

 

Лай колоколов над Русью грозный –

Это плачут стены Кремля.

Ныне на пики звездные

Вздыбливаю тебя, земля!

 

Протянусь до незримого города,

Млечный прокушу покров.

Даже богу я выщиплю бороду

Оскалом моих зубов.

 

Ухвачу его за гриву белую

И скажу ему голосом вьюг:

Я иным тебя, господи, сделаю,

Чтобы зрел мой словесный луг!

 

Языком вылижу на иконах я

Лики мучеников и святых.

Обещаю вам град Инонию,

Где живет божество живых.

 

Проклинаю я дыхание Китежа

И все лощины его дорог.

Я хочу, чтоб на бездонном вытяже

Мы воздвигли себе чертог.

 

Плачь и рыдай, Московия!

Новый пришел Индикоплов.

Все молитвы в твоем часослове я

Проклюю моим клювом слов.

 

1918

 

Sol e Carrilhão

(Wayne Roberts: artista australiano)

 

Um ladrido de sinos sobre a Rússia

 

ao profeta Jeremias

 

Um ladrido de sinos sobre a Rússia:

Choram os muros do Kremlin.

Hoje, com as lanças das estrelas,

Te arrancarei do chão, terra trêmula!

 

Distendido até a cidade invisível

Perfurarei o lácteo véu.

Até a Deus vou beliscar a barba,

Mostrando os dentes para o céu.

 

E lhe direi com voz de vento,

Grudando-o pela grenha alva:

Senhor, vou te fazer diferente

Para florir meu campo de palavras.

 

Lamberei com a língua dos ícones

As máscaras dos mártires lívidos.

Eu lhes prometo a terra de Inonia

Onde vive a divindade dos vivos!

 

Maldigo o respiro de Kitej(1),

Todos os vales do seu mundo.

Quero erguer o nosso castelo

Sobre a escavação sem fundo.

 

Soluça e chora, Moscóvia!

Um novo Indikoplóv(2) se eleva!

Todas as rezas do teu breviário

Rasgarei com meu bico de palavras!

 

1918

 

Notas do Tradutor: (CAMPOS, 2006, p. 136, n.r.)

 

(1). Kitej: cidade legendária que, assediada pelas hordas tártaras, teria sido engolida pela terra.

 

(2). Kosma Indikoplóv: mercador do século VI, que se tornou monge em Alexandria e escreveu um tratado cosmogônico, baseado na Bíblia.

 

Referências:


Em Russo


ЕСЕНИН, Сергей. Лай колоколов над Русью грозный. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 fev. 2026.


Em Português

 

IESSIÊNIN, Sierguéi. / Um ladrido de sinos sobre a Rússia. Tradução de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de (Seleção e tradução). Poesia da recusa. São Paulo, SP: Perspectiva, 2006. p. 135-136.

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