Vivemos uma
experiência de trânsito contínuo até o fim a que todo ser humano está exposto –
a morte –, e é desse caminhar até os seus umbrais que nos fala o poeta chileno,
quando se vão, paulatinamente, instalando rigidezes e desgastes físicos em
nosso corpo, fazendo-nos entrar em decadência, notoriamente seguido pelos
efeitos de um quadro de menor mobilidade, típico da velhice.
E nem só do físico consiste
o nosso declínio: experiências intensas ou traumáticas, ainda que invisíveis, pesam
como cinzas em nossas vidas. Afinal, podemos estar fisicamente presentes no
mundo, mas agarrados aos nossos próprios temores e recordações, ao mesmo tempo que expostos
à herança coletiva de dor e de provações – quer dos que nos compõem o entorno,
quer, mais amplamente, da própria humanidade –, e todas essas linhas de força
induzem cansaço e letargia progressivos sobre o espírito.
J.A.R. – H.C.
Eduardo Anguita
(1914-1992)
La puerta puede abrirse,
puede entrar el ladrido del perro,
sin que necesitemos saber nada.
Mientras no entre el viento en nosotros,
cuando tenemos los ojos viajando entre los muebles
de la diversidad de los miedos de cada muerto,
podemos reír en la espuma de lo obscuro.
La seguridad del que
abre su vestido privado,
dejando mostrar las
huellas blancas de los delirios,
con un poco de fuerza
se logra concentrar la ceniza invisible,
la sombra, mi muerte
particular.
Piedras en los cabellos, ya sólido su silencio,
pasos de las manos solas en el cuerpo.
Es así como amamos el aire de la estatua,
el aire que nos empuja a la vejez.
El hombre camina a uma habitación semejante,
y se coloca el traje que le conduce para siempre.
O portal da confiança
(Boris Kos: artista
esloveno)
Transição para o fim
A porta pode se
abrir,
pode entrar o uivo do
cão,
sem que precisemos
saber de nada.
Enquanto o vento não nos
penetrar,
impondo aos olhos uma
viagem entre os móveis
da diversidade dos
medos de cada morto,
podemos fruir o riso em
meio à espuma da escuridão.
A segurança daquele que expõe as suas vestes íntimas,
deixando à mostra as brancas marcas dos delírios;
com pouco esforço,
logra-se concentrar a cinza invisível,
a sombra, a minha
morte particular.
Pedras nos cabelos, seu
silêncio já sólido,
passos das mãos solitárias
no corpo.
É assim que amamos o
ar da estátua,
o ar que nos empurra
para a velhice.
O homem se encaminha
a um aposento semelhante
e se veste com o
traje que o conduz para sempre.
Referência:
ANGUITA, Eduardo. Tránsito
al fin. In: FITTS, Dudley (Ed.). Antología de la poesía americana
contemporánea / Anthology of contemporary latin-american poetry. A
trilingual compilation: Spanish & Portuguese x English. New York, NY: A New
Directions Book; London, EN: The Falcon Press, 1947. p. 554.
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