Montaigne, citando
Plínio, ao final do Capítulo XIV do Tomo II de seus “Ensaios”, nos diz que: “Nada
é certo senão a incerteza, nem nada há de mais miserável e orgulhoso que o
homem”. Aqui, também, o poeta nos convida a abraçar a incerteza como parte
essencial de nós mesmos, pois que, ainda que o saber e o conhecimento iluminem
e ilustrem o espírito, projetam, por outro lado, novas sombras a serem
desveladas.
Nesse contexto, conhecer
é um ato paradoxal de revelação e de simultâneo ocultamento: cada descoberta
expande o mundo interior, mas também expõe os limites da compreensão humana,
impondo-nos a assunção de certa humildade epistemológica. Ou por outra, o saber
não anula o mistério, senão que o aprofunda – e existir é, em parte, aceitar
esse mistério enquanto parte inerente à realidade!
J.A.R. – H.C.
Pedro Tamen
(1934-2021)
O que não se sabe não
existe
O que não se sabe não
existe.
Quando, por vitória
do fogo
ou jorro surdo,
inesperado, de água,
um golpe de asa, leve
e mal sentido,
te leva os olhos a
recantos calados
aos ouvidos que até
então te dera
o acaso imóvel, teu
parco nascimento,
quando um murmúrio
desperta duvidoso
o que em certeza
tinhas construído
e um véu que não
sabias ao não saber
se abre, e, mais
ainda, quando
consegues ver a mão
que desvelou
o país das narinas,
dos dedos, das pupilas,
então existe, o mundo
cresce em ti
e em ti decresce a
gruta que apalpavas.
Outras voltas darás,
de novo à espera,
até que um dia,
súbito, te entendas
ao entenderes de vez
à luz de um raio
que era preciso
saberes que mais existe
e que o que existe
deveras não se sabe.
Em: “Guião de
Caronte” (1997)
Madalena junto à
chama fumegante
(Georges de La Tour:
pintor francês)
Referência:
TAMEN, Pedro. O que não se sabe não existe. In: COSTA E SILVA, Alberto da; BUENO, Alexei (Seleção e Introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 284-285.
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