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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Pedro Tamen - O que não se sabe não existe

Montaigne, citando Plínio, ao final do Capítulo XIV do Tomo II de seus “Ensaios”, nos diz que: “Nada é certo senão a incerteza, nem nada há de mais miserável e orgulhoso que o homem”. Aqui, também, o poeta nos convida a abraçar a incerteza como parte essencial de nós mesmos, pois que, ainda que o saber e o conhecimento iluminem e ilustrem o espírito, projetam, por outro lado, novas sombras a serem desveladas.

 

Nesse contexto, conhecer é um ato paradoxal de revelação e de simultâneo ocultamento: cada descoberta expande o mundo interior, mas também expõe os limites da compreensão humana, impondo-nos a assunção de certa humildade epistemológica. Ou por outra, o saber não anula o mistério, senão que o aprofunda – e existir é, em parte, aceitar esse mistério enquanto parte inerente à realidade!

 

J.A.R. – H.C.

 

Pedro Tamen

(1934-2021)

 

O que não se sabe não existe

 

O que não se sabe não existe.

Quando, por vitória do fogo

ou jorro surdo, inesperado, de água,

um golpe de asa, leve e mal sentido,

te leva os olhos a recantos calados

aos ouvidos que até então te dera

o acaso imóvel, teu parco nascimento,

quando um murmúrio desperta duvidoso

o que em certeza tinhas construído

e um véu que não sabias ao não saber

se abre, e, mais ainda, quando

consegues ver a mão que desvelou

o país das narinas, dos dedos, das pupilas,

 

então existe, o mundo cresce em ti

e em ti decresce a gruta que apalpavas.

 

Outras voltas darás, de novo à espera,

até que um dia, súbito, te entendas

ao entenderes de vez à luz de um raio

que era preciso saberes que mais existe

e que o que existe deveras não se sabe.

 

Em: “Guião de Caronte” (1997)

 

Madalena junto à chama fumegante

(Georges de La Tour: pintor francês)

 

Referência:

 

TAMEN, Pedro. O que não se sabe não existe. In: COSTA E SILVA, Alberto da; BUENO, Alexei (Seleção e Introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 284-285.

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