Sedimentado no
conflito entre o desejo de permanecer na segurança da noite – símbolo de introspecção
e dos mistérios profundos do ser – e a inevitabilidade do despertar, este poema
de Cardoso – como muitos já neste blog – celebra o eterno ciclo da vida, no
qual cada amanhecer traz consigo novas possibilidades, mas também a nostalgia
do que fica para trás.
A transição entre a
noite e o dia configura-se, desse modo, não somente como fenômeno natural, senão
também como metáfora existencial: a noite, a um só tempo, equipara-se a um
refúgio para o falante e a um lugar de confrontação consigo mesmo; já os
albores da manhã carregam o “perfume da poesia” e a “música das coisas que acordam”,
numa sinfonia natural que inspira o poeta a elevar a sua própria voz, incitando-o
à criação artística.
J.A.R. – H.C.
Lúcio Cardoso
(1912-1968)
Amanhecer
A noite está dentro
de mim,
girando no meu
sangue.
Sinto latejar na
minha boca
as pupilas cegas da
lua.
Sinto as estrelas,
como dedos
movendo a solidão em
que caminho.
Logo o perfume da
poesia
sobe aos meus olhos
trêmulos, cerrados,
ouço a música das
coisas que acordam
sobre o corpo negro
da terra
e a voz do vento
distante
e a voz das palmeiras
abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.
E a noite está dentro
de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as
asas no coração da sombra.
Ouço a música das
flores que tombam,
o tropel das nuvens
que passam
e a minha voz que se
eleva
como uma prece na
planície solitária.
Então sinto a noite
fugindo de mim,
sinto a noite fugindo
dos homens
e o sol que avança na
garupa do mar
e as nuvens curvas
que enchem o céu
como grandes corcéis
de fogo cor-de-rosa
desaparecendo sugados
pela treva.
Em: “Poesias” (1941)
Alvorecer
(Odd Nerdrum: pintor
sueco-norueguês)
Referência:
CARDOSO, Lúcio. Amanhecer. In: __________. Poesia completa. Edição crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo, SP: Edusp, 2011. p. 218-219.
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