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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Zbigniew Herbert - Pensamentos a respeito de meu pai

Uma das mais evidentes particularidades deste poema de Herbert é a forma como descreve a imagem do pai como uma figura ambivalente, quase mitológica, mas também profundamente humana, uma presença que, à primeira vista, surge como imponente – e até mesmo autoritária –, e de quem o falante se ressente de uma certa incomunicação, digo melhor, algum distanciamento físico e emocional.

 

Encarnando princípios éticos e laboriosidade, mas também uma rigidez moral inconciliável com o perdão a transgressões ou erros, o pai, na parte final do poema, deixa de ser um símbolo de poder absoluto, para se revelar vulnerável e mortal, ao renascer dentro do narrador, num processo de internalização, reduzido em tamanho, para se permitir ser aceito e assimilado, num processo de reconciliação tardia no qual a figura paterna passa a ser vista como parte integral do próprio falante.

 

J.A.R. – H.C.

 

Zbigniew Herbert

(1924-1998)

 

Rozmyślania o ojcu

 

Jego twarz groźna w chmurze nad wodami dzieciństwa

(tak rzadko trzymał w ręku moją ciepłą głowę)

podany do wierzenia win nie przebaczający

karczował bowiem lasy i prostował ścieżki

wysoko niósł latarnię gdy weszliśmy w noc

 

myślałem że usiądę po jego prawicy

i rozdzielać będziemy światło od ciemności

i sądzić naszych żywych

– stało się inaczej

 

tron jego wiózł na wózku sprzedawca starzyzny

i hipoteczny wyciąg mapę naszych włości

 

urodził się po raz drugi drobny bardzo kruchy

o skórze przeźroczystej chrząstkach bardzo nikłych

pomniejszał swoje ciało abym mógł je przyjąć

 

w nieważnym miejscu jest cień pod kamieniem

 

on sam rośnie we mnie jemy nasze klęski

wybuchamy śmiechem

gdy mówią jak mało trzeba

aby się pojednać

 

Pai e Filho

(Lutz Baar: artista alemão)

 

Pensamentos a respeito de meu pai

 

O seu rosto ameaçador numa nuvem sobre as águas da infância

(tão raramente segurava nas mãos a minha cabeça quente)

dado à crença da existência de transgressões imperdoáveis

pois desbravava bosques e endireitava caminhos

segurando bem alto a lanterna quando entrávamos na noite

 

pensava que me sentaria à sua direita

e separaríamos a luz das trevas

e julgaríamos os nossos vivos

– mas tudo transcorreu de modo distinto

 

o seu trono foi transportado num carrinho por um antiquário

e a escritura hipotecária mapeou os nossos domínios

 

nasceu pela segunda vez muito pequeno e frágil

com pele translúcida e muito pouca cartilagem

tendo reduzido o seu corpo para que eu o pudesse acolher

 

num lugar sem importância há uma sombra sob a pedra

 

ele próprio cresce em mim e juntos absorvemos nossos fracassos

desatamos a rir

quando dizem o quão pouco é necessário

para se reconciliar

 

Referência:

 

HERBERT, Zbigniew. Rozmyślania o ojcu. In: __________. Wiersze zebrane. Warszawa, PL: Czytelnik, 1982. s. 205.

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