Uma das mais
evidentes particularidades deste poema de Herbert é a forma como descreve a imagem
do pai como uma figura ambivalente, quase mitológica, mas também profundamente
humana, uma presença que, à primeira vista, surge como imponente – e até mesmo
autoritária –, e de quem o falante se ressente de uma certa incomunicação, digo
melhor, algum distanciamento físico e emocional.
Encarnando princípios
éticos e laboriosidade, mas também uma rigidez moral inconciliável com o perdão
a transgressões ou erros, o pai, na parte final do poema, deixa de ser um
símbolo de poder absoluto, para se revelar vulnerável e mortal, ao renascer
dentro do narrador, num processo de internalização, reduzido em tamanho, para se
permitir ser aceito e assimilado, num processo de reconciliação tardia no qual
a figura paterna passa a ser vista como parte integral do próprio falante.
J.A.R. – H.C.
Zbigniew Herbert
(1924-1998)
Rozmyślania o ojcu
Jego twarz groźna w chmurze nad
wodami dzieciństwa
(tak rzadko trzymał w ręku moją ciepłą głowę)
podany do wierzenia win nie przebaczający
karczował bowiem lasy i prostował ścieżki
wysoko niósł latarnię gdy weszliśmy w noc
myślałem że usiądę po jego prawicy
i rozdzielać będziemy światło od ciemności
i sądzić naszych żywych
– stało się inaczej
tron jego wiózł na wózku sprzedawca starzyzny
i hipoteczny wyciąg mapę naszych włości
urodził się po raz drugi drobny
bardzo kruchy
o skórze przeźroczystej chrząstkach bardzo nikłych
pomniejszał swoje ciało abym mógł je przyjąć
w nieważnym miejscu jest cień pod kamieniem
on sam rośnie we mnie jemy
nasze klęski
wybuchamy śmiechem
gdy mówią jak mało trzeba
aby się pojednać
Pai e Filho
(Lutz Baar: artista
alemão)
Pensamentos a
respeito de meu pai
O seu rosto ameaçador
numa nuvem sobre as águas da infância
(tão raramente segurava
nas mãos a minha cabeça quente)
dado à crença da
existência de transgressões imperdoáveis
pois desbravava
bosques e endireitava caminhos
segurando bem alto a
lanterna quando entrávamos na noite
pensava que me
sentaria à sua direita
e separaríamos a luz
das trevas
e julgaríamos os
nossos vivos
– mas tudo
transcorreu de modo distinto
o seu trono foi
transportado num carrinho por um antiquário
e a escritura
hipotecária mapeou os nossos domínios
nasceu pela segunda
vez muito pequeno e frágil
com pele translúcida e
muito pouca cartilagem
tendo reduzido o seu
corpo para que eu o pudesse acolher
num lugar sem
importância há uma sombra sob a pedra
ele próprio cresce em
mim e juntos absorvemos nossos fracassos
desatamos a rir
quando dizem o quão
pouco é necessário
para se reconciliar
Referência:
HERBERT, Zbigniew. Rozmyślania o ojcu. In:
__________. Wiersze zebrane. Warszawa, PL: Czytelnik, 1982. s. 205.
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