Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Luís Vaz de Camões - Cá nesta Babilônia onde mana

Mais do que uma crítica mordaz a uma sociedade cujos valores fundamentais se degradaram, este soneto de Camões, ao combinar elementos religiosos, filosóficos e políticos, retrata em seus flancos os elementos contingentes da condição humana e a luta que se deve empreender, caso se queira manter a integridade em meio às adversidades representadas pela corrupção, pela desordem e pela opressão.

 

Camões sugere que as instituições e os seus líderes têm incorrido em tirania e falsidade, menosprezando a relevância de virtudes tradicionais – como a nobreza, a honra e o saber –, em favor da “cobiça e da vileza”. Para se contrapor a tal ordem de coisas, o vate lusitano entrega-se a um repto de resistência, capaz de manter intacto o ideal superior de transparência, de verdade e de justiça.

 

J.A.R. – H.C.

 

Luís Vaz de Camões

(1524-1580)

(Retratado por Fernão Gomes)

 

Cá nesta Babilônia onde mana

 

Cá nesta Babilônia onde mana

Matéria a quanto mal o mundo cria;

Cá onde o puro Amor não tem valia;

Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

 

Cá onde o mal se afina, o bem se dana;

E pode mais que a honra a tirania;

Cá onde a errada e cega Monarquia

Cuida que um nome vão a Deus engana;

 

Cá neste labirinto onde a Nobreza,

O Valor e o Saber pedindo vão

Às portas da Cobiça e da Vileza;

 

Cá neste escuro caos de confusão

Cumprindo o curso estou da natureza.

Vê se me esquecerei de ti, Sião!

 

Camões na Gruta de Macau

(Francisco Augusto Metrass: pintor português)

 

Referência:

 

CAMÕES, Luiz Vaz de. Soneto CXCIV: Cá nesta Babilônia onde mana. In: __________. Sonetos. Edição especial do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco. Porto, PT: Imprensa Portuguesa, 1880. p. 194.

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