Mais do que uma crítica
mordaz a uma sociedade cujos valores fundamentais se degradaram, este soneto de
Camões, ao combinar elementos religiosos, filosóficos e políticos, retrata em
seus flancos os elementos contingentes da condição humana e a luta que se deve
empreender, caso se queira manter a integridade em meio às adversidades
representadas pela corrupção, pela desordem e pela opressão.
Camões sugere que as instituições
e os seus líderes têm incorrido em tirania e falsidade, menosprezando a relevância
de virtudes tradicionais – como a nobreza, a honra e o saber –, em favor da “cobiça
e da vileza”. Para se contrapor a tal ordem de coisas, o vate lusitano entrega-se a um repto de resistência, capaz de manter intacto o ideal superior de transparência,
de verdade e de justiça.
J.A.R. – H.C.
Luís Vaz de Camões
(1524-1580)
(Retratado por Fernão
Gomes)
Cá nesta Babilônia
onde mana
Cá nesta Babilônia onde
mana
Matéria a quanto mal
o mundo cria;
Cá onde o puro Amor
não tem valia;
Que a Mãe, que manda
mais, tudo profana;
Cá onde o mal se
afina, o bem se dana;
E pode mais que a
honra a tirania;
Cá onde a errada e
cega Monarquia
Cuida que um nome vão
a Deus engana;
Cá neste labirinto onde
a Nobreza,
O Valor e o Saber
pedindo vão
Às portas da Cobiça e
da Vileza;
Cá neste escuro caos
de confusão
Cumprindo o curso
estou da natureza.
Vê se me esquecerei
de ti, Sião!
Camões na Gruta de
Macau
(Francisco Augusto
Metrass: pintor português)
Referência:
CAMÕES, Luiz Vaz de.
Soneto CXCIV: Cá nesta Babilônia onde mana. In: __________. Sonetos.
Edição especial do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco. Porto, PT:
Imprensa Portuguesa, 1880. p. 194.
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