Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Manuel Bandeira - Canção do vento e da minha vida

O falante deste poema empreende uma jornada emocional, da observação atenta à internalização, destacando o poder das experiências por que passa ao longo dos meses, sejam elas decorrentes da interação com elementos do meio natural (folhas, frutas, flores), com disposições sensoriais (luzes, música, aromas), com aspectos de ordem pessoal (sonhos, amizades, mulheres) ou com o tempo em combinação com o sorriso da pessoa amada.

 

Sob tal contexto, o vento, a metaforizar a força da impermanência que a tudo subjuga, embora destrua formas, preserva essências, e a vida, em sua plenitude, torna-se um mosaico de tudo o que foi vivido, amado e perdido: se a vida do sujeito lírico fica “cada vez mais cheia de tudo”, reporta-se ele ao enorme aporte memorial que lhe povoa o espírito e o fertiliza.

 

J.A.R. – H.C.

 

Manuel Bandeira

(1886-1968)

 

Canção do vento e da minha vida

 

O vento varria as folhas,

O vento varria os frutos,

O vento varria as flores...

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De frutos, de flores, de folhas.

 

O vento varria as luzes,

O vento varria as músicas,

O vento varria os aromas...

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De aromas, de estrelas, de cânticos.

 

O vento varria os sonhos

E varria as amizades...

O vento varria as mulheres.

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De afetos e de mulheres.

 

O vento varria os meses

E varria os teus sorrisos...

O vento varria tudo!

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De tudo.

 

Em: “Lira dos Cinquent’anos” (1940)

 

Homem no campo

(Kathrine Leigh Holley: artista norte-americana)

 

Referência:

 

BANDEIRA, Manuel. Canção do vento e da minha vida. In: __________. Antologia poética. 9. ed. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1977. p. 112-113.

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