O falante deste poema
empreende uma jornada emocional, da observação atenta à internalização,
destacando o poder das experiências por que passa ao longo dos meses, sejam
elas decorrentes da interação com elementos do meio natural (folhas, frutas,
flores), com disposições sensoriais (luzes, música, aromas), com aspectos de
ordem pessoal (sonhos, amizades, mulheres) ou com o tempo em combinação com o
sorriso da pessoa amada.
Sob tal contexto, o
vento, a metaforizar a força da impermanência que a tudo subjuga, embora
destrua formas, preserva essências, e a vida, em sua plenitude, torna-se um
mosaico de tudo o que foi vivido, amado e perdido: se a vida do sujeito lírico
fica “cada vez mais cheia de tudo”, reporta-se ele ao enorme aporte memorial
que lhe povoa o espírito e o fertiliza.
J.A.R. – H.C.
Manuel Bandeira
(1886-1968)
Canção do vento e da
minha vida
O vento varria as
folhas,
O vento varria os
frutos,
O vento varria as
flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores,
de folhas.
O vento varria as
luzes,
O vento varria as
músicas,
O vento varria os
aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de
estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as
mulheres.
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de
mulheres.
O vento varria os
meses
E varria os teus
sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
Em: “Lira dos
Cinquent’anos” (1940)
Homem no campo
(Kathrine Leigh
Holley: artista norte-americana)
Referência:
BANDEIRA, Manuel. Canção do vento e da minha vida. In: __________. Antologia poética. 9. ed. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1977. p. 112-113.
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