O poeta espanhol
emprega o erotismo como lente para examinar a complexidade do ato de se
escrever poemas: implicaria ele desnudar a alma, expor-se intimamente através
das palavras, muito embora isso não garanta ao próprio poeta (ou ao seu leitor)
que venha a atingir o clímax do orgasmo emocional que tanto persegue.
Ainda que o poeta
empregue toda a paixão e energia possível, as palavras – como amantes – podem
resistir e negar-se à entrega por completo, deixando o criador em um estado de
incompletude, longe de alcançar a culminação desejada, quer emocional, quer
criativa, quer – e até mesmo! – física. Enfatiza-se, por conseguinte, a
distância entre o intento e a realização propriamente dita, entre o pensamento
expressado e a satisfação que deveria acompanhá-lo.
Mas veja o internauta:
ao afirmar que Vallejo “estava a dissimular”, González adiciona uma camada de
ironia ao poema, sugerindo que o poeta peruano – como muitos artistas – pode,
em certos momentos, haver ocultado a sua própria satisfação com seus
poemas, sob a máscara de uma aparente frustração, com o que se aventa a possibilidade
de que, mesmo sob os efeitos do desapontamento, existam processos internos e
subterrâneos no ato de escrever que escapam à consciência imediata.
Explico-me melhor:
poderia haver por trás do poema, por exemplo, uma busca silenciosa por
autoconhecimento, cura ou assimilação/compreensão de sentimentos complexos – o
que se refletiria em ressonâncias emocionais ou imagéticas plasmadas, direta ou
indiretamente, em seus versos –, tornando-o, a despeito de sua pressuposta
incompletude, um eixo de onde se podem empreender múltiplas interpretações
válidas ou mesmo tentativas de se colimar as lacunas deixadas em suas
entrelinhas, num exercício especulativo tantas vezes levado a efeito pela crítica
especializada ou por diletantes de determinados poetas.
J.A.R. – H.C.
Ángel González
(1925-2008)
A veces
Escribir un poema se parece a un orgasmo:
mancha la tinta tanto como el semen,
empreña también más, en ocasiones.
Tardes hay, sin embargo,
en las que manoseo las palabras,
muerdo sus senos y sus piernas ágiles,
les levanto las faldas con mis dedos,
las miro desde abajo,
les hago lo de siempre
y, pese a todo, ved:
no pasa nada.
Lo expresaba muy bien César Vallejo:
“Lo digo, y no me corro”.
Pero él disimulaba.
En: “Breves
acotaciones para una biografía” (1971)
Convergência
(Ben Bell: artista
inglês)
Às vezes
Escrever um poema se
parece a um orgasmo:
a tinta impregna
tanto quanto o sêmen
e, às vezes, fecunda
também mais.
Tardes há, no
entanto,
em que apalpo as
palavras,
mordiscando-lhes os
seios e suas pernas ágeis,
levanto-lhes as saias
com os dedos,
vejo-lhes o que há
por baixo,
faço-lhes as coisas
de costume
e, apesar de tudo, creiam-me:
nada acontece.
César Vallejo
expressou-o muito bem:
“Dou-lhe vazão, mas
não chego ao clímax”.
Mas estava a dissimular.
Em: “Breves anotações
para uma biografia” (1971)
Referência:
GONZÁLEZ, Ángel. A veces. In: __________. Palabra sobre palabra. Obra completa: 1956-2001. Barcelona, ES: Seix Barral, 2004. p. 259. (“Los Tres Mundos”)
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