Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Ángel González - Às vezes

O poeta espanhol emprega o erotismo como lente para examinar a complexidade do ato de se escrever poemas: implicaria ele desnudar a alma, expor-se intimamente através das palavras, muito embora isso não garanta ao próprio poeta (ou ao seu leitor) que venha a atingir o clímax do orgasmo emocional que tanto persegue.

 

Ainda que o poeta empregue toda a paixão e energia possível, as palavras – como amantes – podem resistir e negar-se à entrega por completo, deixando o criador em um estado de incompletude, longe de alcançar a culminação desejada, quer emocional, quer criativa, quer – e até mesmo! – física. Enfatiza-se, por conseguinte, a distância entre o intento e a realização propriamente dita, entre o pensamento expressado e a satisfação que deveria acompanhá-lo.

 

Mas veja o internauta: ao afirmar que Vallejo “estava a dissimular”, González adiciona uma camada de ironia ao poema, sugerindo que o poeta peruano – como muitos artistas – pode, em certos momentos, haver ocultado a sua própria satisfação com seus poemas, sob a máscara de uma aparente frustração, com o que se aventa a possibilidade de que, mesmo sob os efeitos do desapontamento, existam processos internos e subterrâneos no ato de escrever que escapam à consciência imediata.

 

Explico-me melhor: poderia haver por trás do poema, por exemplo, uma busca silenciosa por autoconhecimento, cura ou assimilação/compreensão de sentimentos complexos – o que se refletiria em ressonâncias emocionais ou imagéticas plasmadas, direta ou indiretamente, em seus versos –, tornando-o, a despeito de sua pressuposta incompletude, um eixo de onde se podem empreender múltiplas interpretações válidas ou mesmo tentativas de se colimar as lacunas deixadas em suas entrelinhas, num exercício especulativo tantas vezes levado a efeito pela crítica especializada ou por diletantes de determinados poetas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ángel González

(1925-2008)

 

A veces

 

Escribir un poema se parece a un orgasmo:

mancha la tinta tanto como el semen,

empreña también más, en ocasiones.

Tardes hay, sin embargo,

en las que manoseo las palabras,

muerdo sus senos y sus piernas ágiles,

les levanto las faldas con mis dedos,

las miro desde abajo,

les hago lo de siempre

y, pese a todo, ved:

no pasa nada.

 

Lo expresaba muy bien César Vallejo:

“Lo digo, y no me corro”.

 

Pero él disimulaba.

 

En: “Breves acotaciones para una biografía” (1971)

 

Convergência

(Ben Bell: artista inglês)

 

Às vezes

 

Escrever um poema se parece a um orgasmo:

a tinta impregna tanto quanto o sêmen

e, às vezes, fecunda também mais.

Tardes há, no entanto,

em que apalpo as palavras,

mordiscando-lhes os seios e suas pernas ágeis,

levanto-lhes as saias com os dedos,

vejo-lhes o que há por baixo,

faço-lhes as coisas de costume

e, apesar de tudo, creiam-me:

nada acontece.

 

César Vallejo expressou-o muito bem:

“Dou-lhe vazão, mas não chego ao clímax”.

 

Mas estava a dissimular.

 

Em: “Breves anotações para uma biografia” (1971)

 

Referência:

 

GONZÁLEZ, Ángel. A veces. In: __________. Palabra sobre palabra. Obra completa: 1956-2001. Barcelona, ES: Seix Barral, 2004. p. 259. (“Los Tres Mundos”)

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