Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Jay Parini - A Função do Inverno

O poeta expressa sua preferência pelas estações do ano mais frias, ou seja, o outono e, sobretudo o inverno, durante as quais as estantes do porão da casa ficam aprovisionadas de mantimentos para um período tão longo de uma paisagem monotônica, hibernal, muito embora, por outro lado, a temporada o sustenha com um “coração quente” e a “cabeça deveras fascinada por si própria para pensar”.

 

É o entorpecimento do inverno, alusão às brumas frias e cinzentas, aos ventos e tempestades de gelo ou de neve a bloquearem o livre trânsito sobre a terra, à emigração das andorinhas: um tempo que leva muitos a certa e extrema angústia, em razão do encurtamento dos dias. Mas em compensação, também um emblema da previdência que se processa em seu subterrâneo, até que tudo se renove pelo advento da primavera.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jay Parini

(n. 1948)

 

The Function of Winter

 

I’m for it, as the last leaves shred

or powder on the floor, as sparrows find

the driest footing, and November rains

fall hard as salt sprayed over roads.

The circulating spores take cover

where they can, and light runs level

to the ground again: no more the vertical

blond summer sheen that occupies a day,

but winter flatness – light as part of things,

not things themselves. My hearts in storage

for the six-month siege we re in for here,

laid up for use a little at a time

like hardtack on a polar expedition,

coveted though stale. Ideas, which in

summer hung a crazy jungle in my head,

subside now, separate and gleam in parts;

I braid them for display on winter walls

like garlic tails or onions, crisp hay wreaths.

One by one, I’ll pluck them into spring.

If truth be told, I find it easier

to live this way: the fructifying boom

of summer over, wild birds gone, and wind

along the ground where cuffs can feel it.

Everything’s in reach or neatly labeled

on my basement shelves. I’m ready to begin

to see what happened when my heart was hot,

my head too dazzled by itself to think.

 

In: “Town Life” (1983-1988)

 

Paisagem de Inverno

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

A Função do Inverno

 

Estou a par, basta ver as últimas folhas fragmentadas

ou esfaceladas sobre o solo, bem assim os pardais que são

atraídos pelas hastes mais secas, e as chuvas de novembro

caindo com força, que nem sal pulverizado sobre as estradas.

Os esporos em dispersão se acomodam

onde podem, e a luz volta a correr

ao nível do solo: não mais o flavo

brilho vertical do verão a ocupar um dia,

senão a monotonia do inverno – a luz como parte das coisas,

não as coisas em si mesmas. Meus corações fornidos estão

aprovisionados para o cerco de seis meses que aqui

nos espera,

retidos para serem usados um pouco a cada vez

como biscoitos de bordo em uma expedição polar –

cobiçados, ainda que rançosos. As ideias, que no

verão faziam pender um louco jângal em minha cabeça,

agora se dissipam, se separam e brilham por partes;

urdo-as para exibi-las nas paredes invernosas como tranças

de bulbos de alho ou de cebolas, guirlandas congelantes

de feno.

Uma a uma, vou arrancá-las na primavera.

A bem da verdade, reputo mais fácil

viver assim: o auge frugífero do verão

já consumado, as aves silvestres em debandada, e o vento

a percorrer o solo, onde os punhos podem senti-lo.

Tudo está ao alcance da mão ou bem etiquetado

nas estantes de meu porão. Estou pronto para começar

a ver o que se passou enquanto meu coração esteve quente,

minha cabeça deveras fascinada por si própria para pensar.

 

Em: “Vida Urbana” (1983-1988)

 

Referência:

 

PARINI, Jay. The function of winter. In: __________. New and collected poems: 1975-2015. Boston, MA: Beacon Press, 2016. p. 167.

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