Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Kay Ryan - Tartaruga

Quem gostaria de ser uma tartaruga e viver na velocidade da paciência desse animal de vida longa? Seria melhor viver dez anos a mil ou mil anos a dez? Obviamente que para a mente humana, viver como uma tartaruga resultaria numa espécie de estado opressivo, tanto mais tendo que portar, para onde quer que vá, a única proteção de que dispõe para se manter num mundo pleno de hostilidades: sua carapaça!

 

Desajeitada e lenta, a tartaruga tem na paciência o seu esporte preferido. E foi lançando mão de seu principal recurso que ela logrou vencer a lebre, na hipotética corrida entre ambas, levada a efeito no reino dos animais, segundo a fábula que nos foi legada pelo grego Esopo (620 a.C. - 564 a.C.). Tenha-se presente, portanto: “Devagar se vai ao longe!”

 

J.A.R. – H.C.

 

Kay Ryan

(n. 1945)

 

Turtle

 

Who would be a turtle who could help it?

A barely mobile hard roll, a four-oared helmet,

she can ill afford the chances she must take

in rowing toward the grasses that she eats.

Her track is graceless, like dragging

a packing-case places, and almost any slope

defeats her modest hopes. Even being practical,

she's often stuck up to the axle on her way

to something edible. With everything optimal,

she skirts the ditch which would convert

her shell into a serving dish. She lives

below luck-level, never imagining some lottery

will change her load of pottery to wings.

Her only levity is patience,

the sport of truly chastened things.

 

Tartaruga Marinha 2

(Hailey E. Herrera: pintora norte-americana)

 

Tartaruga

 

Quem quereria ser uma tartaruga se pudesse evitá-lo?

Um rolo maciço que mal se move, um casco com quatro remos,

ela sequer pode permitir-se os riscos que tem de enfrentar

ao remar em direção às gramíneas de que se alimenta.

Seu rastro é desgracioso, como o arraste deixado

por um caixote, e quase qualquer declive

frustra suas modestas esperanças. Ainda que seja prática,

com frequência se embaraça ao eixo, em sua marcha

até algo comestível. Nas melhores circunstâncias,

consegue contornar o sulco que poderia converter

sua carapaça em uma baixela. Ela vive abaixo

do nível de sorte, sem nunca imaginar que alguma loteria

poderia converter em asas o seu fardo de terracota.

Sua única veleidade é a paciência,

o esporte das coisas verdadeiramente castigadas.

 

Referência:

 

RYAN, Kay. Turtle. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 421.

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