A poética, para Rodrigues Filho, leva – ou deveria levar – a versos que
não estejam empapados de sentimentalidades ou de subjetividades: seca sem ser
desumana, sem estar dissociada de tudo o que seja humano, a par de quase
descarnada, porque seria essa parcimônia que engendraria o que urgente se
reclama.
Embora não no mesmo tropo, a ideia aproxima-se às regiões lindeiras de outras
tantas que advogam a desventura como motivo condutor não só para a poética, quanto
para toda a literatura. Mas o fato é que há poemas meritórios oriundos de tudo
quanto é tendência: o que releva é não estar morta a poesia!
J.A.R. – H.C.
Luiz Martins Rodrigues Filho
(1923-2001)
Poética
seco como uma
paisagem sem bosques densos
seco como um osso a
que não adira tecido enxundioso
seco como um rosto
não lavrado pelas lágrimas
seco como uma lâmina
de encontro a outra lâmina
seco como uma vida a
que não chegue o apelo fácil
do sentimentalismo
seco como uma semente
que, guardando em si todo
um mundo, aparenta
ser oca
seco como um ser que,
tendo em si tanta energia
latejando, parece descarnado
seco como o que é
seco ou tem a aparência rude
do seco
mas apesar disso tudo
não se divorcia do homem
seco sem ser desumano
sem ser miserável e abjeto
seco do seco mais
humano possível.
(1972)
À borda da floresta de Fontainebleau:
pôr do sol
(Théodore Rousseau:
pintor francês)
Referência:
RODRIGUES FILHO, Luiz Martins. Poética.
In: __________. Suor do tempo:
1946-1979. São Paulo, SP: Canton, [1979?]. p. 60.
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