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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 10 de março de 2020

Félix Pita Rodríguez - Contribuição ao estudo da bruma

Com o título a referir-se à bruma – fenômeno que, de imediato, aponta para muitos dos motivos a que os pintores da arte impressionista recorriam com certa frequência –, de fato, o poema de Rodríguez mais se detém a descrever o comportamento de gaivotas noturnas, que apreciariam estar envoltas em neblinas, em nevoeiros.

Contudo, “gaivotas noturnas”, diríamos assim, mais não são do que humanos cujo comportamento leva-os para longe dos raios de luz, fazendo-os embeber-se em nostalgias e silêncios, acabando por cingi-los com o manto basto de uma vida celibatária, sem descendentes, do que decorreriam – descreve-as o autor cubano – experiências catárticas.

J.A.R. – H.C.

Félix Pita Rodríguez
(1909-1190)

Contribución al estudio de la bruma
A Gustavo Eguren
que las ha visto.

Las gaviotas nocturnas son de austeras costumbres.
Generalmente anidan en las ramas más altas
de los cierzos perdidos del invierno. Se alimentan de escarcha,
de los frutos maduros de la niebla, y de las taciturnas
flores de la esperanza. Son calladas y mueren con frecuencia
víctimas de esa fiebre de incurables nostalgias
que diezma a los delfines más australes.
No tienen descendencia.

Se reproducen solas, de las plumas que pierden
las tormentas que a veces se extravían,
cuando imprudentes cruzan, sin las cartas de ruta,
por las noches polares.
Jamás hablan de amor,
desconocen la guerra, y tienen la costumbre de la duda.

Su extinción causaría danos irreparables,
pues sólo ellas conocen las fórmulas secretas
de las destilaciones del sudor de agonía,
recogido en las frentes de aquellos que murieron,
víctimas de la cólera de las grandes tormentas,
en las noches más frías.
Sudor que destilado según las viejas fórmulas
que custodian severas las gaviotas nocturnas,
produce los aceites esenciales
con los que gota a gota se fabrica la bruma.

De: “Historia tan natural” (1970)

Impressão do Amanhecer
(Claude Monet: pintor francês)

Contribuição ao estudo da bruma
A Gustavo Eguren
que as viu.

As gaivotas noturnas têm costumes austeros.
Geralmente se aninham nos ramos mais altos
dos ventos perdidos do inverno. Alimentam-se de geada,
dos frutos maduros da névoa, e das taciturnas
flores da esperança. São caladas e morrem com freqüência
vítimas dessa febre de nostalgias incuráveis
que dizima os delfins mais austrais.
Não têm descendência.

Reproduzem-se sozinhas, das plumas que perdem
às tormentas que às vezes se extraviam,
quando imprudentes cruzam, sem bússola,
pelas noites polares.
Jamais falam de amor,
desconhecem a guerra, e têm o costume da dúvida.

Sua extinção causaria danos irreparáveis,
pois só elas conhecem as fórmulas secretas
das destilações do suor de agonia,
recolhido nas frontes daqueles que morreram,
vítimas da cólera das grandes tormentas,
nas noites mais frias.
Suor que destilado segundo as velhas fórmulas
que guardam severas as gaivotas noturnas,
produz os azeites essenciais
com os que gota a gota se fabrica a bruma.

De: “História tão natural” (1970)

Referência:

RODRÍGUEZ, Félix Pita. Contribución al estudio de la bruma / Contribuição ao estudo da bruma. Tradução de Alai Garcia Diniz e Luizete Guimarães Barros. In: LEMUS, Virgilio López (Seleção, prefácio e notas). Vinte poetas cubanos do século XX. Tradução de Alai Garcia Diniz e Luizete Guimarães Barros. Edição bilíngue. Florianópolis, SC: Ed. da UFSC, 1995. Em espanhol: p. 102; em português: p. 103.

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