Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 4 de julho de 2015

Salvador Espriu - Lucro Puro

O autor do ‘post’ de hoje já aqui esteve por diversas vezes. O catalão Salvador Espriu é autor de obras significativas no cenário literário de seu país. São relevantes os traços relativos ao ambiente político em que imerso, em especial o da guerra civil e da ditadura franquista.

O poema abaixo, em paralelo à fachada mais explícita da sátira de um velho rico, seu tom caricatural e irônico, permite vislumbrar um cotejo entre os conceitos de ganho e de pureza. Será possível que a história dos países possa vir a ser outra que a de constantes pilhagens e guerras, para construir a fortuna de alguns em detrimento da maioria?

J.A.R. – H.C.

Salvador Espriu
(1913-1985)

Guany Pur

Versots de Salom, en la paràfrasi del
“Pobre anguniejat”. Serà casual la
semblança amb algun conegut correcte.

Abatia a cops de pal,
perseguint-la dins el somni
amb urgent tenacitat,
alta volada de cignes,
nobles ocells augurals.
Deixa la llum de muntanyes
i davalla vers ciutat.
Es decanta per l'entrada 
de cavall sicilià.

Treu darreres gotes
de qui no té res.
S'aprofita sempre
de fam o de set.
Tracta en pa, rajoles,
teixits, ferro vell.
Ven avui per cent
el que costa tres.
Gemegant contava
a tothom que hi perd.

Aplega en poc temps milions.
Aleshores adquiria
de l’Església absolucions,
per si de cas hi ha una mica
de Déu o potser d'infern.
Tan segures inversions
donaran renda bonica:
no saps mai si aquestes coses
a la llarga són reals. 
Trametia als hospitals
i als Infants Escrofulosos,
a vegades, quatre rals.

Tots els règims troba bé,
mentre pugui fer diner.
De prestigi va en augment,
mastega amb enteniment.
Per malalt no es fica al llit.
És tan savi, que ha reunit
llibres i llibres triats
(lloms de pell, títols daurats).
Per arrodonir cultura,
compra discos i pintura.
Es distreu jugant al mus
i passeja en automòbil
com si fos un gra de pus.

Predicant seny i moral,
arribava, gras, content,
a una edat patriarcal.
Moria sobtadament,
sense gens de sofriment.
Quan el duen a enterrar,
segueixen rera el taüt
capellans i forces vives,
innombrable multitud:
aprengui la joventut.

En nom de tots els ocells
esclafats, dipositem,
en homenatge, corones
de lliris i de clavells
al blanc sepulcre. Després
corbarem, servils, l'esquena
en presència dels hereus.

O Agiota
(Gerard Dou: pintor holandês)

Lucro Puro

Poeminhas de Salom (*) parafraseando o
“pobre coitado”. Será casual a
semelhança com qualquer conhecido correto.

A pauladas, abatia
perseguindo-o nos sonhos
com urgente teimosia
um soberbo voo de cisnes,
aves augurais, miríficas.
Renuncia a luz das serras
e à cidade se encaminha.
Decide imitar a entrada
de um cavalo da Sicília.

Tira últimos pingos
de quem nada tem.
Vai lucrando sempre
da fome e da sede.
Trata em pão, tijolos,
roupa, ferro-velho.
O que custa três
mercadeja em cem.
A todos, gemendo,
conta o que perdeu.

Junta rápido milhões.
Chegou a hora de adquirir
da Igreja as absolvições
por se alguma coisa existe
de Deus ou de punições.
Investimentos tão hábeis
só podem dar renda boa
– afinal ninguém é dono
da verdade, nestas coisas.
A hospitais e instituições,
à criança escrofulosa
manda, às vezes, dois tostões.

Qualquer regime acha bom
contanto que dê dinheiro.
Cresce muito seu prestígio,
mastiga com grande esmero.
Não há doença que o dobre.
É tão sábio que enfileira
livros capeados de couro
com os títulos em ouro.
Completando sua cultura
junta discos e pintura.
Gosta de jogar ao buraco
e passeia em seu carrão
com ínfulas de velhaco.

Pregando juízo e moral
chegava, gordo e contente
a uma idade patriarcal.
Morria subitamente
sem nem ao menos sofrer.
Quando o levam a enterrar
andam, atrás do caixão
sacerdotes, forças vivas,
incontável multidão:
– Olhai, nova geração!

Em nome dos muitos pássaros
esmagados, deitamos,
como homenagem, coroas
de açucenas e de cravos
na branca tumba. Mais tarde
curvaremo-nos, servis,
na presença dos herdeiros.

Nota:

(*) Salom, na mitologia particular de Espriu, é um títere, sábio e palúrdio, simbolizando o Destino que, desde uma impenetrável sombra, movimenta os fantoches do Grande Teatro do Mundo.

Referência:

ESPRIU, Salvador. Lucro puro. In: SOLER, Luis (Organização e Tradução). 4 poetas da Catalunha. Edição bilíngue. Florianópolis: Editora da UFSC, 2010. Em catalão, p. 108, 110 e 112; em português, p 109, 111 e 113.

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