Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Paulo Mendes Campos - O Poeta no Bar

O mineiro Paulo Mendes Campos é mais conhecido entre nós pelas suas crônicas, tanto mais que militou no jornalismo por longo tempo. De nossa parte, lembramo-nos de sua contribuição para um dos volumes da série “Para Gostar de Ler”, lá pelos idos dos 80.

Mas Campos também compôs belos poemas, como o que ora carreamos a este espaço: “O Poeta no Bar”. O poeta descortina na expressão artística, qualquer que seja a sua forma – pintura, música, teatro ou poema –, o veículo de exteriorização de algo que calou fundo num espírito insondável.

J.A.R. – H.C.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

O Poeta no Bar

Que fazer de um instrumento,
Violoncelo, fonte, flauta,
A buscar um sofrimento
Que se encontra além da pauta?
Quando perdemos a voz,
Fala de nós e por nós
O personagem sem medo
Cujas palavras de olvido
Compõem o outro sentido
Do segredo de um degredo.

Tudo que rói e escalavra,
Dente de marfim do mar,
Faca do vento a passar,
Lembra a busca da palavra.
Só conhecer a ciência,
Mallarmaica paciência,
Capaz de achar a vogal
Que surde empós das toantes,
Escandidas consoantes
De uma pausa musical.

Estas horas perdoadas,
Perdidas de quem nos ama,
São aflições combinadas
Às pantomimas do drama.
Um filamento de riso
Liga o inferno ao paraíso.
Se a noite esconde as estrelas,
Pode um palhaço brilhante
Dar um salto tão distante
Que seja digno de vê-las.

Esse arlequim de pintura
Vai surgir aqui, apenas
Compare a sua figura
As minhas roupas terrenas.
Vão surgir do saltimbanco
Perfil, fronte, face e flanco.
Vou sofrer por artifício
O silêncio desta mesa
Que me exila na clareza
De meu puro sacrifício.

Recife em mar de presságio,
Um poema não tem porto,
Vaga que devolve o morto
Às areias do naufrágio.

Em: “O Domingo Azul do Mar” (1958)

Retrato de Jamie Sarbartes, o Poeta
(Pablo Picasso: 1881-1973)

Referência:

CAMPOS, Paulo Mendes. O poeta no bar. In: __________. Os melhores poemas de Paulo Mendes Campos. Seleção de Guilhermino Cesar. 2. ed. São Paulo: Global, 1997. p. 45-46. (Os Melhores Poemas, n. 22)

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