Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 23 de maio de 2015

Ivan Junqueira - Outra Vez, o Poema

Ivan Junqueira vivenciou a arte de fazer metapoemas com prodigalidade. Por isso, mais uma vez, e na mesma coletânea de poemas a que antes fizemos referência, “Essa Música”, Junqueira vem reapreciar a matéria. E não se esconde por trás de títulos obscuros, não!, pois explicita: “Outra vez, o Poema”.

O autor carioca reassume a ideia, já tantas vezes alimentada, de que o poema, por vezes, não se expressa com presteza para veicular, pela palavra, a poesia que o poeta vê como parte inarredável da realidade. Ou de outro modo: a poesia resta encarcerada no peito de quem a experimenta.

Mas quando a poesia deixa-se fluir com desenvoltura, então, deve o poeta “ensinar-lhe o trote com doçura”, para que possa, por fim, atingir um destino inatacável pela erosão do tempo.

J.A.R. – H.C.

Ivan Junqueira
(1934-2014)

Outra Vez, o Poema

You say I am repeating
Something I have said before.
I shall say it again.
(T. S. Eliot, East Coker)

O poema não vem logo,
assim como algo que brota
de qualquer áspero solo:
cacto, minério, petróleo.

Mais fundo leem-se em prólogo,
uma arcaica pré-história
de imagens, tropos, infólios,
o mais das vezes insólitos,

pouco visíveis no vórtice
em que os atores se movem
e, como espectros, dialogam
ou dizem só um monólogo,

sobretudo quando, ególatra,
o poema faz-se a si próprio,
sem o timbre de outras vozes
que não as suas, despóticas.

Cumpre aguardar que ele aflore
à superfície da escória
que o encobre em suas dobras
de eras já sem viço, idosas.

É lá, no ermo, que ele dorme
à espera de quem o acorde
e dê-lhe um rosto, uma forma,
a medida de uma estrofe.

Há também, com rédea forte,
que domá-lo enquanto jovem.
O poema, assim que explode
e o ofusca o que há lá fora,

escoiceia, salta, solta
aquele bafo que o afoga
no espanto de quem o sol
bate de frente nos olhos.

Convém então, nesta hora,
pôr-lhe freio ou brida. E um jóquei
capaz de ensinar-lhe o trote
com doçura, e nunca a espora.

Depois é vê-lo a galope,
já sem ter ninguém a bordo.
Ele a sós, indo-se embora
para o infinito onde mora.

Cavalgada em um Mundo Mágico
(Olga Recio: artista francesa)

Referência:

JUNQUEIRA, Ivan. Outra vez, o poema. In: __________. Essa música. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2014. p. 71-73.

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