Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Jack Kerouac - Como Meditar

Kerouac descreve o processo pelo qual se passa para chegar a um estado de meditação e relaxamento profundos, removendo todo o pensamento que atravessa a mente, para manter-se no presente e em unidade com o universo: o contexto tende a assemelhar-se, segundo o autor, a um êxtase provocado por uma “injeção de heroína ou morfina”.

 

“Pensar é como não pensar”, afirma o oxímoro de Kerouac, embora o “beatnik” tenha se posto a “pensar” para redigir o poema, pois do contrário os leitores jamais saberiam o que teria ocorrido em sua mente, ou melhor, incorreríamos no silêncio sobre o silêncio na consciência do falante do poema, quando em meditação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jack Kerouac

(1922-1969)

 

How to Meditate

 

– lights out –

 

fall, hands a-clasped, into instantaneous

ecstasy like a shot of heroin or morphine,

the gland inside of my brain discharging

the good glad fluid (Holy Fluid) as

I hap-down and hold all my body parts

down to a deadstop trance – Healing

all my sicknesses – erasing all – not

even the shred of a “I-hope-you” or a

Loony Balloon left in it, but the mind

blank, serene, thoughtless. When a thought

comes a-springing from afar with its held-

forth figure of image, you spoof it out,

you spuff it out, you fake it, and

it fades, and thought never comes – and

with joy you realize for the first time

“Thinking’s just like not thinking –

So I don’t have to think

any

more”.

 

1967

 

Meditação

(Dinesh Thakur: pintor indiano)

 

Como Meditar

 

– luzes apagadas –

mergulho, mãos soltas no êxtase instantâneo

como uma injeção de heroína ou morfina,

a glândula dentro do meu cérebro liberando

o fluido bom da alegria (Fluido Sagrado) enquanto

eu caio, concentro todas as partes

do meu corpo até o ponto morto do transe – curando

todas as minhas doenças – apagando tudo – nem mesmo

a sombra de um “espero que você” ou um vestígio de

pensamento, só a mente vazia, serena, desligada.

Quando um pensamento surge ao longe anunciando sua

imagem, você ignora, você não dá bola, você finge que

não vê, e ele desaparece, e o pensamento nunca vem – e

com alegria você percebe pela primeira vez que

“Pensar é como não pensar –

Então eu não preciso

mais

pensar”.

 

1967

 

Referências:

 

KEROUAC, Jack. How to meditate / Como meditar. Tradução de Kadija de Paula. In: LEITE, Luiza; MEDEIROS, Thais (Eds.). The floating bear: poemas traduzidos. Vários poetas & Vários tradutores. Rio de Janeiro, RJ: Fada Inflada e Rébus, 2021. Em inglês: p. 83; em português: p. 44. Disponível neste endereço. Acesso em: 28 jan. 2024.

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sábado, 3 de fevereiro de 2024

Nicolas Behr - Receita

Sob o efeito corrosivo ou transformador do tempo, embebido em desilusões, em férvidas paixões, em fantasias licenciosas e, de resto, perpassado – como se sugere – por melodias inolvidáveis, o poema tem lá a sua “receita” para se mostrar digno da matéria em que se decantou a crônica de nossas vidas.

 

É claro, tudo não passa de facécia nestes versos de Behr, porque escrever poesia de valor dificilmente se reduz a seguir uma receita previamente concebida: “filha do acaso” e, ao mesmo tempo, “fruto do cálculo” – como diria Octavio Paz –, a poesia exige, a um só tempo, “inspiração, respiração, exercício muscular”, para que possa chegar a ser uma “bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!” (rs)

 

J.A.R. – H.C.

 

Nicolas Behr

(n. 1958)

 

Receita

 

Ingredientes

 

dois conflitos ele gerações

quatro esperanças perdidas

três litros de sangue fervido

cinco sonhos eróticos

duas canções dos beatles

 

Modo de preparar

 

dissolva os sonhos eróticos

nos dois litros de sangue fervido

e deixe gelar seu coração

 

leve a mistura ao fogo

adicionando dois conflitos

de gerações às esperanças perdidas

 

corte tudo em pedacinhos

e repita com as canções dos beatles

o mesmo processo usado com os

sonhos eróticos mas desta vez

deixe ferver um pouco mais e

mexa até dissolver

 

parte do sangue pode ser

substituído por suco de groselha

mas os resultados não serão

os mesmos

 

sirva o poema simples

ou com ilusões

 

Preparando “Konda Kavum”

(Bolinhos ao óleo)

(Chandrani S. Wijesooriya: artista cingalesa)


Referência:

 

BEHR, Nicolas. Receita. In: ROSA, Jaime B. (Ed.). Antología de poesía brasileña. Organización de Floriano Martins y José Geraldo Neres. Edición bilingüe: portugués x español. 1. ed. Madrid, ES: Huerga y Fierro, feb. 2007. p. 74.

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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Anne Sexton - A Sala da Minha Vida

Ainda que os objetos na sala da falante não tenham, de fato, se alterado em sua forma, é o olhar sobre as coisas, num cenário fora das quatro linhas, transmutado, insólito às vezes, que dá ensejo a uma dinâmica consentânea à imaginação poética que a autora entorna nestes versos.

 

Afirma a voz lírica que, sendo a detentora de todas as palavras, retidas em suas mãos, e frente a um mar que lhe “estronda na garganta”, compele os objetos a “confessarem” outros tantos atributos ou finalidades que, à primeira vista, não se lhes associam.

 

A rigor, as imagens evocadas acabam por revelar o estado emocional da poetisa, eis que símbolos do modo contrastante como se sente em relação aos mundos interior e exterior, mundos em que pairam o comedido e o caótico, o inamovível e o cambiante.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anne Sexton

(1928-1974)

 

The Room of My Life

 

Here,

in the room of my life

the objects keep changing.

Ashtrays to cry into,

the suffering brother of the wood walls,

the forty-eight keys of the typewriter

each an eyeball that is never shut,

the books, each a contestant in a beauty contest,

the black chair, a dog coffin made of Naugahyde,

the sockets on the wall

waiting like a cave of bees,

the gold rug

a conversation of heels and toes,

the fireplace

a knife waiting for someone to pick it up,

the sofa, exhausted with the exertion of a whore,

the phone

two flowers taking root in its crotch,

the doors

opening and closing like sea clams,

the lights

poking at me,

lighting up both the soil and the laugh.

The windows,

the starving windows

that drive the trees like nails into my heart.

Each day I feed the world out there

although birds explode

right and left.

I feed the world in here too,

offering the desk puppy biscuits.

However, nothing is just what it seems to be.

My objects dream and wear new costumes,

compelled to, it seems, by all the words in my hands

and the sea that bangs in my throat.

 

In: “The Awful Rowing Towards God” (1975)

 

Interior: minha sala de jantar

(Wassily Kandinsky: artista russo)

 

A Sala da Minha Vida

 

Aqui,

na sala da minha vida

os objetos estão sempre mudando.

Cinzeiros onde se verte o pranto;

o irmão padecente das paredes de madeira;

as quarenta e oito teclas da máquina datilográfica,

cada qual um globo ocular que nunca se fecha;

os livros, que nem competidores num concurso de beleza;

a cadeira preta, um ataúde canino feito de Naugahyde;

as tomadas na parede

à espera, como se fossem alvéolos de uma colmeia;

o tapete dourado,

um colóquio entre calcanhares e dedos dos pés;

a lareira,

uma faca à espera de que alguém a apanhe;

o sofá, como que exaurido pela labuta de uma rameira;

o telefone,

duas flores deitando raízes em seu gancho;

as portas,

abrindo e fechando como amêijoas marinhas;

as luminárias

me bisbilhotando,

clareando tanto o solo quanto o riso.

As janelas,

as famintas janelas

que cravam as árvores como garras em meu coração.

Todos os dias dou de comer ao mundo lá fora,

ainda que os pássaros irrompam

a torto e a direito.

Também dou de comer ao mundo aqui dentro,

oferecendo biscoitos para cachorrinhos à mesa.

No entanto, nada é apenas o que parece ser.

Meus objetos sonham e vestem-se com novos trajes,

compelidos, ao que parece, por todas as palavras

em minhas mãos

e pelo mar que me estronda na garganta.

 

Em: “O Terrível Remar em Direção a Deus” (1975)

 

Referência:

 

SEXTON, Anne. The room of my life. In: __________. The complete poems. With a foreword by Maxine Kumin. 1st ed. Boston, MA: Houghton Mifflin Company, 1981. p. 422.

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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

René Depestre - Uma definição de poesia

A poesia, como uma “canção plangente”, pode ser um engenho de prata capaz de atenuar – ou mesmo de contornar – os estados tormentosos que costumam se formar ao redor de nossos miúdos, pondo-os ao alcance do perigo: se a chuva “tomba violenta”, por que não se recorrer ao apelo mágico do poema, transformando-lhes a vida num maná palatável?!

 

Bem ao contexto, Depestre – poeta, romancista e ensaísta haitiano – dedica o poema ao escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001), em cujas obras muito se estampa o desamparo a que expostos adolescentes e crianças na “Cidade da Bahia”, muito particularmente em “Capitães de Areia” (1937) – uma denúncia social contra o abandono da infância e da juventude em Salvador.

 

J.A.R. – H.C.

 

René Depestre

(n. 1926)

 

Une définition de la poésie

 

A Jorge Amado

 

La poésie, c’est notre père qui arrive un soir

Sous une pluie torrentielle, et qui nous chante

Une complainte qu’il a composée pour une petite

Cuillère en argent.

Notre père voulait arrêter la pluie de septembre avec une

petite cuillère, et la pluie a retourné son esprit comme um

vieux pantalon.

La poésie, c’est:

Un père haïtien qui perd la raisons

Pour une petite cuillère mise en chanson

Sous une pluie qui pousse avec rage

Tout près de notre enfance!

 

Dans: “Poète a Cuba” (1976)

 

Primeiros passos, à maneira de Millet

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Uma definição de poesia

 

A Jorge Amado

 

A poesia é nosso pai que chega ao anoitecer

Sob chuva torrencial e nos murmura

Uma canção plangente que compôs para uma pequenina

Colher de prata.

Nosso pai queria sustar a chuva de setembro com uma

colherinha e a tempestade transformou o seu espírito

no de um bobo velho.

A poesia é:

Um pai haitiano que perde o juízo

Por uma colherinha que se fez canção

Sob chuva que tomba violenta

Vizinha a nossa infância!

 

Em: “O poeta em Cuba” (1976)

 

Referência:

 

DEPESTRE, René. Une définition de la poésie / Uma definição de poesia. Tradução de Idelma Ribeiro de Faria. In: FARIA, Idelma Ribeiro de (Tradução e ensaios). T. S. Eliot, Emily Dickinson e René Depestre: seleção. São Paulo, SP: Hucitec, 1992. Em francês: p. 168; em português: p. 169. (Coleção ‘Literatura Estrangeira’; v. 1)

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