Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 4 de maio de 2022

William Carlos Williams - Pinturas de Brueghel - I: Autorretrato

A pintura a que se refere Williams neste poema, de fato, não pertence ao artista flamengo, senão ao pintor francês Jean Fouquet (c.1420-1478): é que à altura em que redigida esta seção intitulada “Autorretrato”, de “Pinturas de Brueghel”, ainda se atribuía a Brueghel, o Velho (c.1525-1569) a sua autoria.

 

Os aspectos descritivos das linhas de Williams – um notório admirador de Brueghel – apresentam tanta aderência aos contornos da pintura de Fouquet, abaixo postada, que quase não sobra nada ao leitor como elemento conjecturável sobre a vida e a figura do grande pintor lá dos inícios da Idade Moderna (ou mesmo sobre o que representaria ser um artista no sentido mais estrito da palavra).

 

J.A.R. – H.C.

 

William Carlos Williams

(1883-1963)

 

Pictures from Brueghel

 

“Brueghel saw it all.”

 

“...the form of a man’s rattle may be in accordance with instructions received in the dream by which he obtained his power.”

Frances Densmore

The Study of Indian Music

 

I - Self-Portrait

 

In a red winter hat blue

eyes smiling

just the head and shoulders

 

crowded on the canvas

arms folded one

big ear the right showing

 

the face slightly tilted

a heavy wool coat

with broad bottons

 

gathered at the neck reveals

a bulbous nose

but the eyes red-rimmed

 

from over-use he must have

driven them hard

but the delicate wrists

 

show him to have been a

man unused to

manual labor unshaved his

 

blond beard half trimmed

no time for any-

thing but his painting

 

Retrato do Bobo da Corte de Ferrara

(Jean Fouquet: pintor francês)

 

Pinturas de Brueghel

 

“Brueghel via isso tudo.”

 

“...a forma do chocalho de um homem pode estar de acordo com as instruções recebidas no sonho pelo qual ele obteve seu poder.”

Frances Densmore

The Study of Indian Music

 

I - Autorretrato

 

De chapéu vermelho sorrindo

olhos azuis

só a cabeça e os ombros

 

enchem a tela

os braços cruzados

orelhas grandes à direita mostrando

 

o rosto um pouco inclinado

um pesado casaco de lã

com botões largos

 

cobrindo até o pescoço revela

um nariz bulboso

mas os olhos avermelhados

 

de tanto uso deve ter

exigido muito deles

mas os delicados pulsos

 

mostram que deve ter sido um

homem pouco afeito ao

trabalho braçal sua

 

barba clara mal aparada

sem ter tempo para um

nada que não seja pintar

 

Referência:

 

WILLIAMS, William Carlos. Pictures from Brueghel - I: Self-Portrait / Pinturas de Brueghel - I: Autorretrato. Tradução de Beethoven Alvarez. (n.t.) Revista Literária de Tradução, Florianópolis (SC), ano 9, nº 19, 2º vol., p. 34-35 (em inglês) / p. 47-48 (em português), dez. 2019. Disponível neste endereço. Acesso em: 30 abr. 2022.

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terça-feira, 3 de maio de 2022

Alberto da Costa e Silva - Breve Solilóquio no Jardim das Tulherias

A voz poética enceta um monólogo entre o falante de agora e o menino que foi um dia, a pedalar uma bicicleta, tal como – quem sabe? –, algum outro garoto que, pelo momento, haja avistado a passear pelo Jardim das Tulherias, em Paris (FR): as memórias se fazem presentes e protraem as suas linhas de força até as fronteiras de significado que lhes são atribuídas pelo sujeito que as evoca.

 

Na mente de quem recorda, há uma vã recusa em reconhecer que o tempo passou, que o que fomos não se conforma ao que agora somos. Seja como for, as promessas de um futuro feliz, erigidas no passado, podem muito bem se coadunar com as realizações em curso e próximas de seu termo no presente: o itinerário do menino sobre a bicicleta, desse modo, não se terá extraviado, e o seu sorriso de chegada denota a certeza de ter usufruído uma vida significativa.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alberto da Costa e Silva

(n. 1931)

 

Breve Solilóquio no Jardim das Tulherias

 

O que quer este menino a andar de bicicleta,

senão lembrar-me do que fui?

Senão, tonto de riso,

entre pombos e pardais no chão

ensolarado, fingir-me?

 

Não aceito o ter sido. Nem me quero menor

no coração que guardou o assombro e a fábula

de tudo o que viveu como

um sonho escondido.

 

Os dias me cobraram o que era infinito.

E, se agora persigo o pedalar do menino,

é porque sei que sou o final do seu riso.

 

As Tulherias: estudo

(Claude Monet: pintor francês)

 

Referência:

COSTA E SILVA, Alberto da. Breve solilóquio no Jardim das Tulherias. Revista da Academia Brasiliense de Letras (ABrL), Brasília (DF), ano 1, fase 2, nº 3, p. 10, fev. 2021. Disponível neste endereço. Acesso em: 25 abr. 2022.

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segunda-feira, 2 de maio de 2022

Richard Scarsbrook - Grandes Questões da História sem Resposta

O falante põe-se a conjecturar sobre um elenco de questões que, a bem da verdade, contradizem o título atribuído ao poema, pois que não denotam qualquer relevância no contexto da História, essa que se grafa com inicial maiúscula, haja vista que a compilar os momentos cruciais da humanidade em seu já longo e conflituoso percurso.

 

Nas cinco quadras de rimas parelhas, o que se tem, de fato, é a menção a quatro figuras ilustres – Shakespeare, Platão, Einstein e Freud – e um repertório de hipotéticas situações contingentes que lhes dizem respeito, as quais bem poderiam ser assunto para jornais sensacionalistas, como o tabloide britânico “The Sun”: se fossem contemporâneos de tais grandes nomes, quem sabe se os “paparazzi” que lhes prestam serviços não seriam capazes de respondê-las a contento?! (rs)

 

J.A.R. – H.C.

 

Richard Scarsbrook

(n. 1968)

 

Great Unanswered Questions of History

 

I wonder if Shakespeare was ever eighteen

Did he work at a gas bar, tell stories for free?

Did he hike to the East side to the beatnik cafe?

To hide in the shadows and drink underage?

 

I wonder when Plato got his first kiss

When she offered her lips, did he pucker and miss?

Did he make up tall tales to tell loafers at school?

Did he put on black leather, pretend to be cool?

 

I wonder if Einstein ever worried about

The zits on his face, while he made out

Had the cops in the campground heard the noise in the tent?

Had he saved enough money for his college rent?

 

I wonder if Freud got weak in the knees

When a girl like you began to tease

Would you be there beside him when he woke up?

Would you head for the sunset with him in his pickup truck?

 

Here tomorrow, gone today

History seems to work that way

Here today, just you and me

As for History, we’ll just wait and see.

 

Mestre Betty como Hamlet,

diante de um busto de Shakespeare

(James Northcote: pintor inglês)

 

Grandes Questões da História sem Resposta

 

Pergunto-me se Shakespeare alguma vez teve dezoito anos;

Se trabalhou num posto de gasolina, se contou histórias de graça?

Se caminhou para o lado leste até o Café Beatnik

Para se esconder nas sombras e beber sendo menor de idade?

 

Indago-me sobre a ocasião em que Platão recebeu seu primeiro beijo:

Quando ela lhe ofereceu os lábios, ele franziu o cenho e a ignorou?

Se inventava lorotas para contar aos mandriões na escola?

Se envergava uma jaqueta de couro negro, pretendendo-se atraente?

 

Pergunto-me se Einstein alguma vez se preocupou com

As acnes em seu rosto; se, enquanto se metia em baladas,

Os policiais do camping teriam escutado o barulho na tenda?

Se havia reservado dinheiro suficiente para a locação na faculdade?

 

Pergunto-me se Freud ficou com os joelhos vacilantes

Quando uma garota, ao teu estilo, começou a provocá-lo:

Estarias ao seu lado quando ele acordasse?

Virias a seguir com ele ao entardecer em sua caminhonete?

 

Foi-se o hoje, o amanhã novamente aqui.

A História parece funcionar dessa maneira.

Hoje, aqui, somente tu e eu.

Quanto à História, apenas aguardemos para ver o que se passa.

 

Referência:

 

SCARSBROOK, Richard. Great unanswered questions of history. In: McALISTER, Neil Harding (ed.). New classic poems: contemporary verse that rhymes. Illustrated by Jonathan Day. Ontario, CA: Published by Neil Harding McAlister, 2005. p. 37.

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domingo, 1 de maio de 2022

William Matthews - Paisagem com Espectador

O espectador noturno está à janela e observa a lua cheia no firmamento e o seu reflexo nas águas de um lago: logo pondera como ela se parece a uma “laranja recém descascada” em meio à paisagem, a qual, em terra, integra-se à vegetação, melhor dizendo, às árvores com “folhas crestadas e frágeis”, prestes a cair.

 

Contrariamente à “sensualidade de bem-estar” com que se sustenta a lua, o observador experimenta o medo – qual água a subir num poço –, a lhe assaltar o espírito na “calada da noite”, acompanhado por um “incômodo suor metálico”, gotejante feito “vil orvalho”, levando-o a sentir-se como se ameaçado por um afogo, à deriva de um frio perspirar. Augúrios da lua cheia?!

 

J.A.R. – H.C.

 

William Matthews

(1942-1997)

 

Landscape with Onlooker

 

One night shy of full, fat as a beach ball, the moon

looks not lonesome shining through the trees, but replete

 

with the thoughtless sensuality of well-being.

A chill in the air? No, under the air, like water

 

under a swimmer. The unsteadfast leaves grow crisp

and brittle, the better to fall away. Some nights

 

fear, like rising water in a well, fills these hours –

the dead of night, as the phrase goes, when you quicken

 

and the dank metallic sweat beads like a vile dew.

But tonight you stand at your window, framed and calm,

 

and the air’s as sweet as a freshly peeled orange.

There’s a moon on the lake, and another in the sky.

 

Mulher à espera do sol nascente

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

Paisagem com Espectador

 

Certa noite, acanhada de cheia, gorda como bola

de praia, a lua

não parece solitária brilhando entre as árvores,

mas repleta

 

da impensada sensualidade de bem-estar.

Um frio no ar? Não, sob o ar, como água

 

sob um nadador. As folhas inconstantes ficam crestadas

e frágeis, para melhor caírem. Certas noites

 

o medo, como água subindo no poço, enche as horas –

na calada da noite, como se diz, quando a gente se agita

 

e o incômodo suor metálico goteja como vil orvalho.

Mas hoje à noite ficas à janela, emoldurada e calma,

 

e o ar é tão doce quanto uma laranja recém descascada.

Há uma lua no lago e outra no céu.

 

Referência:

 

MATTHEWS, William. Landscape with onlooker / Paisagem com espectador. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. In: O’SHEA, José Roberto (Org.). Antologia de poesia norte-americana contemporânea. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. Florianópolis, SC: Ed. da UFSC, 1997. Em inglês: p. 122; em português: p. 123.

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