Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 7 de maio de 2016

Thiago de Mello - Os Estatutos do Homem

Este poema do poeta amazonense Thiago de Mello já foi traduzido para muitos idiomas. Dispõe ele de um linguajar poético estilizado e contemporâneo, engajado politicamente em relação a um tempo no qual as liberdades democráticas foram confrangidas na América Latina, como nos anos 60 e 70 do século passado.

Mas o ativismo de Mello não se exprime apenas no domínio político: no campo social manifesta-se também ele, na medida em que defende a floresta amazônica como reserva ecológica chave para a humanidade, além de ampla justiça social para os povos que nela habitam.

J.A.R. – H.C.

Thiago de Mello
(n. 1926)

Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964.

Velhos à Espera
(Freddie Combs: pintor norte-americano)

Referência:

MELLO, Thiago. Os estatutos do homem. In: PINTO, José Nêumanne (Seleção). Os cem melhores poetas brasileiros do século. São Paulo, SP: Geração Editorial, 2001. p. 273-276.
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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Lao-Tzu - Tao-Te King: XXXVI

Este aforismo, extraído do Tao-Te King, é um dos mais emblemáticos entre os seus 81 postulados, pois transcorre numa sequência de máximas paradoxais, como se refletir quisesse as polaridades yin e yang do antigo pensamento chinês, para o qual a existência é o resultado de opostos em interação.

A alusão diz respeito não a estados fixos em oposição, mas a ações que se orientam a sentidos distintos. As circunstâncias – ou mesmo os elementos da natureza – retraem-se ou expandem-se, enfraquecem-se ou fortalecem-se, mas, em seus fundamentos, presente está sempre o movimento. Há movimento mesmo no estado que conhecemos por morte: a matéria se decompõe para criação de novos organismos, entidades, criaturas.

À realidade em constante mudança devemos nos adaptar, pois tudo flui como numa espiral: da riqueza à pobreza, do amor ao ódio, da calma à agitação, do relaxamento à tensão – e daí aos estados iniciais de onde partiram, em perpétuo trânsito.

Ao fim da mensagem, Lao-Tzu aconselha que se ocultem as armas do Estado, como o peixe se esconde no fundo do mar. Qualquer combatente experiente há de concordar que é boa estratégia não exibir de uma vez, aos adversários, todo o poderio militar que se detém. Afinal, o que se desconhece gera mais temor do que a demonstração inequívoca das armas na linha de frente de uma batalha.

Além disso, como se pode ter certeza de nossa superioridade militar, se o adversário estiver empregando as mesmas estratégias, deixando de exibir alguns de seus recursos mais expressivos? Sob tal enfoque, ninguém é suficientemente poderoso, para ostentar provocações a quem quer que seja, pois há limites mesmo para o mais possante dos exércitos!

J.A.R. – H.C. 


XXXVI

O que queres comprimir,
primeiro deves deixar que se expanda bem.
O que queres enfraquecer,
primeiro deves deixar que se fortaleça bem.
O que queres destruir,
primeiro deves deixar que desabroche bem.
Àquele de quem queres tirar,
primeiro deves dar o bastante.
Chama-se a isso “conhecer bem o invisível”.
A brandura triunfa sobre a dureza.
A fraqueza triunfa sobre a força.
Não se deve tirar o peixe das profundezas.
Não se deve mostrar ao povo
os meios de ação do reino.

Templo Kiyomizu - Kyoto
(Thomas Wells Schaller: pintor norte-americano)

Referência:

LAO-TZU. XXXVI. In: __________. Tao-Te King: texto e comentário de Richard Wilhelm. Tradução de Margit Martincic. São Paulo, SP: Pensamento, 2006. p. 72.
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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Machado de Assis - A Carolina

Neste muito conhecido soneto, Machado faz uma homenagem póstuma à sua amada esposa Carolina, portuguesa de nascimento, com quem, durante uma longa lida de convivência – foram 35 anos sob o mesmo teto –, não chegou a gerar filhos.

Não se nota no poema – até mesmo por sua temática mais austera – a sutil ironia que o autor costuma empregar em seus escritos, senão os traços pungentes de um coração em sofrimento, a conceber como prescritos quaisquer propostas de vida futuras, vislumbre que, afinal, haveria de suceder, pois Machado faleceu apenas quatro anos depois.

J.A.R. – H.C.

Machado de Assis
(1839-1908)

A Carolina

Querida! Ao pé do leito derradeiro,
em que descansas desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores – restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados;

que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos.

Carolina Augusta Xavier de Novais
(1835-1904)

Referência:

ASSIS, Machado de. A Carolina. In: PINTO, José Nêumanne (Seleção). Os cem melhores poetas brasileiros do século. São Paulo, SP: Geração Editorial, 2001. p. 49.
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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Charles Baudelaire: XVI - O Relógio

Baudelaire, no poema em prosa abaixo, nos reconta a história de um missionário na China que, para saber das horas por intermédio de um garoto, viu-se, de repente, surpreendido ao perceber que este recorrera ao branco dos olhos de um gato farto, para lhe afirmar que ainda não passara do meio-dia.

Contempla então o narrador os olhos de seu belo felino – sendo ambíguo se se trata de um gato propriamente dito ou de sua amante humana –, para de lá capturar todos as representações da eternidade!

J.A.R. – H.C.

Charles Baudelaire
(1821-1867)

XVI
L’Horloge

Les Chinois voient l’heure dans l’oeil des chats.
Un jour un missionnaire, se promenant dans la banlieue de Nankin, s’aperçut qu’il avait oublié sa montre, et demanda à un petit garçon quelle heure il était.
Le gamin du céleste Empire hésita d’abord; puis, se ravisant, il répondit: “Je vais vous le dire.” Peu d’instants après, il reparut, tenant dans ses bras un fort gros chat, et le regardant, comme on dit, dans le blanc des yeux, il affirma sans hésiter: “Il n’est pas encore tout à fait midi.” Ce qui était vrai.
Pour moi, si je me penche vers la belle Féline, la si bien nommée, qui est à la fois l’honneur de son sexe, l’orgueil de mon coeur et le parfum de mon esprit, que ce soit la nuit, que ce soit le jour, dans la pleine lumière ou dans l’ombre opaque, au fond de ses yeux adorables je vois toujours l’heure distinctement, toujours la même, une heure vaste, solennelle, grande comme l’espace, sans divisions de minutes ni de secondes, – une heure immobile qui n’est pas marquée sur les horloges, et cependant légère comme un soupir, rapide comme un coup d’oeil.
Et si quelque importun venait me déranger pendant que mon regard repose sur ce délicieux cadran, si quelque Génie malhonnête et intolérant, quelque Démon du contretemps venait me dire: “Que regardes-tu là avec tant de soin? Que cherches-tu dans les yeux de cet être? Y vois-tu l’heure? mortel prodigue et fainéant?” je répondrais sans hésiter: “Oui, je vois l’heure; il est l’Eternité!”
N’est-ce pas, madame, que voici un madrigal vraiment méritoire, et aussi emphatique que vous-même? En vérité, j’ai eu tant de plaisir à broder cette prétentieuse galanterie, que je ne vous demanderai rien en échange.

En: “Petits Poèmes en Prose” (1862)

O Relógio
(Juan Gris: pintor espanhol)

XVI
O Relógio

Os chineses veem as horas nos olhos dos gatos.
Um dia, um missionário, passeando nos arredores de Nanquim, percebeu que tinha esquecido o relógio e perguntou a um garotinho que horas eram.
A princípio, o moleque do celeste Império ficou indeciso; depois, mudando de ideia, respondeu: “Já vou lhe dizer”, e foi embora. Passados alguns instantes, ele reapareceu, segurando nas mãos um gato bem gordo, e, fitando-lhe, como se diz, o branco do olho, afirmou sem hesitar: “Ainda não passou do meio-dia”. O que era verdade.
Quanto a mim, se me chego à bela Felina – que nome justo! – que é, de uma só vez, a honra do seu sexo, o orgulho do meu coração e o perfume do meu espírito, quer seja de noite, quer seja de dia, em plena luz ou numa escuridão opaca, no fundo dos seus adoráveis olhos eu sempre vejo distintamente o tempo, sempre o mesmo, um tempo vasto, solene, grande como o espaço, não dividido em minutos nem em segundos – um tempo imóvel que não é marcado pelos relógios e, todavia, leve como um suspiro, rápido como uma olhada.
E se algum importuno me viesse incomodar, enquanto meu olhar repousasse sobre esse mostrador delicioso, se um Gênio desonesto e intolerante, um Demônio do contratempo viesse dizer-me: “O que é que estás olhando com tanta atenção? O que estás procurando nos olhos desse ser? Por acaso, vês lá as horas, mortal pródigo e vadio?” – responderia sem hesitar: “Sim, lá vejo as horas: é a Eternidade!”
Não é, Senhora, um madrigal realmente meritório e tão enfático quanto você? Na verdade, tive tanto prazer em bordar esse pretensioso galanteio que não lhe pedirei nada em troca.

Em: “Pequenos Poemas em Prosa” (1862)

Referências:

Em Francês

BAUDELAIRE, Charles. L’horloge. In: NOVARINO-POTHIER, Albine (Édition et choix). Le chat en 60 poèmes. Paris: Omnibus, 2013. p. 47.

Em Português

BAUDELAIRE, Charles. XVI - O Relógio. In: __________. O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa e outros escritos. Tradução de Oleg Almeida. São Paulo, SP: Martin Claret, 2010. p. 50-51. (Clássicos de Bolso: literatura universal; n. 4)
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terça-feira, 3 de maio de 2016

Alphonsus de Guimaraens - Ismália

Mais do que um poema clássico do período simbolista de nossa literatura, este poema do mineiro Alphonsus é um dos mais recitados em aulas de língua e literatura em todo o Brasil, isso já há décadas, pois, ainda na segunda metade dos anos 70 – quando este blogueiro era um secundarista –, já ele se encontrava no livro que então usávamos.

Talvez em função de o poema ser mesmo uma referência, o Metrô de São Paulo resolveu fixá-lo num mural de uma de suas estações, nomeadamente a estação Paraíso, ali onde milhares de pessoas transitam todos os dias em direção aos seus afazeres cotidianos.

J.A.R. – H.C.

Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921)
Ilustração de Laudelino Freire

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Sonho Provocado pelo Voo de uma Abelha
em torno de uma Romã um Segundo Antes de Acordar
(Salvador Dalí: pintor espanhol)

Referência:

GUIMARAENS, Alphonsus de. Ismália. In: PINTO, José Nêumanne (Seleção). Os cem melhores poetas brasileiros do século. São Paulo, SP: Geração Editorial, 2001. p. 26-27.
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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre o momento político atual do Brasil

Vai aqui mais uma mirada externa sobre o atual momento político brasileiro, desta feita do ex-primeiro ministro italiano (1998-2000), mais tarde vice-primeiro-ministro e, ainda, ministro dos Negócios Estrangeiros (2006-2008), Massimo d’Alema, político pertencente ao Partido Democrático de Esquerda, que sucedeu ao Partido Comunista Italiano.

J.A.R. – H.C.

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José Hernández - Martín Fierro (Excerto)

Hernández tece loas à palavra, pois o mundo, sem diálogo, é um tédio só! E quando esse diálogo se dá entre amigos, ocorre então, segundo o poeta, o maior bem que se pode gozar neste mundo.

Veja-se atentamente que o escritor argentino, estando o seu personagem detido na penitenciária, não deplora a falta de liberdade – como seria de se esperar –, mas o vazio que se assemelha àquele prévio à criação do mundo!

J.A.R. – H.C.

José Hernández
(1834-1886)

Canto XII: El hijo mayor de Martín Fierro

La Penitenciaria
(Extracto)

(...)

Sin poder decir palabra
sufre en silencio sus males,
y uno en condiciones tales,
se convierte en animal,
privao del don principal
que Dios hizo á los mortales.

Yo no alcanzo á comprender
porque motivo será,
que el preso privado está
de los dones mas preciosos
que el justo Dios bondadoso
otorgó á la humanidá.

Pues que de todos los bienes,
en mi inorancia lo infiero
que le dió al hombre altanero
su Divina Magestá,
la palabra es el primero,
el segundo es la amistá.

Y es muy severa la ley
que por un crímen ó un vicio,
somete al hombre á un suplicio
el mas tremendo y atroz,
privado de un beneficio
que ha recebido de Dios.

Pintura da Série ‘Martín Fierro’
(Roberto Duarte: pintor argentino)

Canto XII: O filho maior de Martín Fierro

A penitenciária
(Excerto)

(...)

706

Sem dizer uma palavra,
na mudez se sofre mais,
e a gente, em condições tais,
se converte em animal,
roubado ao dom principal
que o bom Deus fez aos mortais.

707

Não consigo compreender
porque motivo será
que o preso privado está
de um dom, assim tão precioso,
que Deus, por justo e bondoso,
somente aos humanos dá.

708

Pois que de todos os bens
(tenho-o como verdadeiro)
que ao varão mais altaneiro
deu a excelsa Majestade,
será a palavra o primeiro
vindo depois a amizade.

709

E é muito severa a lei
que, por um crime ou um vido,
impõe ao homem suplício
tão tremendo e tão atroz,
privando-o de um benefício
que Deus fez a todos nós.

(...)

Referências:

Em Espanhol

HERNÁNDES, José. El hijo mayor de Martín Fierro (extracto). In: __________. Martín Fierro. 1. ed. Buenos Aires (AR): RTM Laboratorios Gador, 2009. p. 162.

Em Português

HERNÁNDEZ, José. O filho maior de Martín Fierro (excerto). In: __________. Martín Fierro. Tradução de J. O. Nogueira Leiria. Porto Alegre, RS: Editora Bels, 1972. p. 114.
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domingo, 1 de maio de 2016

Vicente de Carvalho - A Flor e a Fonte

Neste mais que reprisado poema, o poeta e magistrado paulista metaforiza, nas figuras da flor e da fonte, o declínio dos poderes mágicos do amor, e mais extensivamente, do fluxo de todas as coisas que configuram uma vida plena.

Singelo, mas nem por isso menos belo, o poema nos faz refletir sobre o sentido último de nossas vidas, quase sempre gozadas num cotidiano atribulado e que deixa pouca margem para os prazeres da contemplação e da meditação, com o que poderíamos encontrar um estado de equilíbrio e serenidade.

J.A.R. – H.C.

Vicente de Carvalho
(1866-1924)

A Flor e a Fonte

“Deixa-me, fonte!” Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

“Deixa-me, deixa-me, fonte!”
Dizia a flor a chorar:
“Eu fui nascida no monte...
Não me leves para o mar.”

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

“Ai, balanços do meu galho,
Balanços do berço meu;
Ai, claras gotas de orvalho
Caídas do azul do céu!...”

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror,
E a fonte sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

“Adeus, sombra das ramadas,
Cantigas do rouxinol;
Ai, festa das madrugadas,
Doçuras do pôr do sol;

Carícia das brisas leves
Que abrem rasgões de luar...
Fonte, fonte, não me leves,
Não me leves para o mar!...”

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.

Lírios D’Água
(Claude Monet: pintor francês)

Referência:

CARVALHO, Vicente. A flor e a fonte. In: __________. Rosa, rosa de amor: poema. Rio de Janeiro, RJ: Laemmert & C. Editores, 1902. p. 31-32.
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