Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 8 de março de 2015

Sophia de Mello Breyner Andresen - As Pessoas Sensíveis

Num poema marcado pelo escárnio, a poetisa portuguesa Sophia de Mello dirige-se àqueles que, arrogando-se a qualidade da sensibilidade, exploram o suor e o sangue de terceiros para atingir os seus objetivos; não são capazes de matar os animais, mas os comem. Ao final, Sophia emprega uma paródia bíblica, embora invertida, para sacramentar o aludido efeito sarcástico: “Perdoai-lhes Senhor, porque eles sabem o que fazem”.

J.A.R. – H.C.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, em 1919, e [faleceu em Lisboa, em 2004](*). Começou a publicar poesias em 1944, contando-se desde então abundante criação poética. O poema desta postagem foi extraído de sua obra “Livro Sexto”, de 1962 (COSTA E SILVA; BUENO, 1999, p. 450).

Sophia de Mello
(1919-2004)

As Pessoas Sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”.

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Nota:

(*) Informação extraída deste endereço na wikipédia.

Referência:

ANDRESEN, Sophia de Melo Breyner. As pessoas sensíveis. In: COSTA E SILVA, Alberto da; BUENO, Alexei (Organização e Introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro, RJ: Lacerda, 1999. p. 83.

sábado, 7 de março de 2015

Mário Faustino - Vida Toda Linguagem

Vamos a um poema recolhido à seleta “O Homem e sua Hora e Outros Poemas”, do poeta e jornalista piauiense Mário Faustino. Faustino, que viveu pouco mais de três décadas, trabalhou na antiga “A Província do Pará” e, logo após, na “Folha do Norte”, no período de 1947 a 1956, em Belém do Pará.

O livro de poemas supramencionado contém um prefácio do professor, ensaísta e crítico paraense Benedito Nunes. Nunes parece estar se referindo, especificamente, ao poema abaixo transcrito, quando comenta:

A agonia, a luta impulsiva na criação poética que a mesma arte da palavra resolveria, culmina numa transfusão de opostos: a linguagem se organifica, a vida se verbaliza. De acordo com a segunda intuição criativa de Mário Faustino, o poema é um todo vivo, orgânico, de que nada pode ser retirado e ao qual nada pode ser acrescentado, repousando sobre elos analógicos que garantem – e eis a terceira intuição – o mútuo envolvimento de palavra e coisa. Realizada como arte, a poesia concretiza uma experiência, que é aprendizagem da vida e da poesia: quarto pressuposto intuitivo da poética de “O homem e sua hora”. Essas quatro intuições perduraram quer no momento “experimental” quer no momento final (NUNES, 2009, p. 44).

J.A.R. – H.C.

Mário Faustino
(1930-1962)

Vida Toda Linguagem

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjetivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.

Vida toda linguagem,
há entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjetivo, verso, verso.

Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que criança espalhará – oh metáfora ativa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sêmen de homens maduros, verbo, verbo.

Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.

Vida toda linguagem –
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.

Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os vocábulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno,
                                            contra a chuva,
tenta fazê-la eterna – como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

Referências:

FAUSTINO, Mário. Vida toda linguagem. In: __________. O homem e sua hora e outros poemas. Pesquisa e organização de Maria Eugenia Boaventura. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 70-71.

NUNES, Benedito. A poesia de meu amigo Mário. In: FAUSTINO, Mário. O homem e sua hora e outros poemas. Pesquisa e organização de Maria Eugenia Boaventura. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 38-56.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Mario Quintana - O Poema

Um poeminha sobre o poema. Um poeta entre os grandes poetas. Tal é a suma que fazemos deste ‘post’. E se o poeta afirma que todo poema é triste, não é que esteja a afirmar uma verdade universal, senão apenas um ponto de vista pessoal. Isto porque o poema vem-lhe do interno, que manifestamente é capaz de evidenciar toda a sua própria tristeza, filtrada por singular beleza.

J.A.R. – H.C.

Mario Quintana
(Alegrete, RS, 1906 – Porto Alegre, RS, 1994)

Com uma poesia simples, entre terna e irônica, não raro bem humorada, Mario Quintana conquistou um público fiel - e é um nome importante do segundo momento do nosso Modernismo. Principais obras poéticas: A rua dos cata-ventos (1940), Canções (1946), Sapato florido (1948), O aprendiz de feiticeiro (1950), Espelho mágico (1951), Caderno H (1975), Apontamentos de história sobrenatural (1976), A vaca e o hipogrifo (1977) (PINTO, 2004, p. 109).

O Poema

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para
sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Referência:

QUINTANA, Mario. O poema. In: PINTO, José Nêumanne (Sel.). Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século. Ilustrações de Tide Hellmeister. 2. ed. São Paulo, SP: Geração Editorial, 2004. p. 109.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Augusto dos Anjos - Sonetos

Trazemos aos finos apreciadores das letras, quatro sonetos do poeta paraibano Augusto dos Anjos, nenhum deles entre os seus mais conhecidos, como “Versos Íntimos” e “Psicologia de um Vencido”.

A poesia de Augusto dos Anjos não é pronunciadamente aderente a nenhuma das escolas das quais foi contemporâneo, como sejam, a simbolista e a parnasiana. Cheia de  termos científicos, com recorrentes imagens de sofrimento e de morte, ela paira numa instância quase inacessível, deixando o leitor em situação meio difícil para recitá-la de modo desembaraçado.

Ou será que afirmo isso porque me encontro já meio disléxico?! (rs).

J.A.R. – H.C.

Augusto dos Anjos
(1884-1914)

O Martírio do Artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz, e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

(ANJOS, 2001, p. 32)

Imersa em Pensamentos (Sozinha)
Jakub Schikaneder: pintor tcheco
(1855-1924)

Minha Finalidade

Turbilhão teleológico incoercível,
Que força alguma inibitória acalma,
Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma
Dos que amam apreender o Inapreensível!

Predeterminação imprescritível
Oriunda da infra-astral Substância calma
Plasmou, aparelhou, talhou minha alma
Para cantar de preferência o Horrível!

Na canonização emocionante
Da dor humana, sou maior que Dante,
– A águia dos latifúndios florentinos!

Sistematizo, soluçando, o Inferno...
E trago em mim, num sincronismo eterno,
A fórmula de todos os destinos!

(ANJOS, 2001, p. 69)

No Necrotério
Jakub Schikaneder: pintor tcheco
(1855-1924)

Vítima do Dualismo

Ser miserável dentre os miseráveis
– Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconciliáveis
E as mais opostas idiossincrasias!

Muito mais cedo do que o imagináveis
Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
Cóleras dos dualismos implacáveis
E à gula negra das antinomias!

Psiquê biforme, o Céu e o Inferno absorvo...
Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
Feita dos mais variáveis elementos,

Ceva-se em minha carne, como um corvo,
A simultaneidade ultramonstruosa
De todos os contrastes famulentos!

(ANJOS, 2001, p. 73)

Funeral
Jakub Schikaneder: pintor tcheco
(1855-1924)

Noturno

Chove. Lá fora os lampiões escuros
Semelham monjas a morrer... Os ventos
Desencadeados vão bater, violentos,
De encontro às torres e de encontro aos muros.

Saio de casa. Os passos mal seguros
Trêmulo movo, mas meus movimentos
Susto, diante do vulto dos conventos,
Negro, ameaçando os séculos futuros!

De São Francisco no plangente bronze
Em badaladas compassadas onze
Horas soaram... Surge agora a Lua.

E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos
Enquanto a chuva cai nos cemitérios
E o vento apaga os lampiões da rua!

(ANJOS, 2001, p. 168)

Referência:

ANJOS, Augusto dos. Todos os sonetos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2001. (L&PM Pocket, nº 83)

terça-feira, 3 de março de 2015

Rui Barbosa - O Reino da Mentira

Rui Barbosa, considerado por muitos como o maior de todos os brasileiros, sumaria-nos a forma como via o país em 1919, quando se encontrava em campanha presidencial contra o então senador Epitácio Pessoa, que, ao final, se elegeu. Pergunto-vos: alguma coisa diferente do que hoje presenciamos nesta ‘terra brasilis’? Salva-se algum partido? Há mentira até mesmo nos protestos, como afirma Rui!

Neste dias, fala-se em ‘impeachment’ da presidente Dilma, como se o que viesse depois fosse, como afirma o jornalista Mino Carta, “o sol da ordem e do progresso”. Mas nada disso se projeta: saindo Dilma entre o vice-presidente Michel Temer, que, teria por trás, toda a força do partido com mais peso no Congresso Nacional.

Um outro ponto: não se percebe, nas palavras de Rui, menção às mentiras veiculadas sistematicamente pela imprensa. Ou será que a nossa imprensa só diz a verdade? É ela, com a oposição que foi derrotada nas urnas, que fomenta tal “hipótese golpista e estúpida”, segundo Carta. Merecemos a nossa grande imprensa?

Costumo dizer que não voto em um candidato A ou B, ou num partido C ou D. Voto, sempre e sistematicamente, contra quem a grande imprensa – em especial a Rede Globo e a Veja – defende como candidato ou partido. Isto porque ela atenta contra a democracia na defesa de seus próprios interesses – e de mais ninguém! O resto são consequências!

Tristes trópicos!

J.A.R. – H.C.

Rui Barbosa
(1849-1923)

O Reino da Mentira

Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o padre Vieira (que não chegou a conhecer o Sr. Urbano Santos), o próprio sol mentia ao Maranhão, e direis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz; na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vezes não sabem se estão, ou não estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindouros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que à força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso.

Conferência proferida na Associação Comercial do Rio de Janeiro, em 8 de março de 1919, por ocasião da campanha presidencial em que teve como antagonista o senador Epitácio Pessoa. Rui venceu em todas as grandes capitais e cidades do Brasil. (Campanha Presidencial, Bahia, 1921, págs. 77-78)

Referência:

BARBOSA, Rui. O reino da mentira. In: __________. Antologia. Seleção, prefácio e notas de Luís Viana Filho. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1953. p. 23-35.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Quem foi Shakespeare?

Temos aqui um ‘post’ sobre a vida de Shakespeare, mais propriamente uma sinopse de autoria do jornalista Jerônimo Teixeira. Faz ela menção ao soneto CXXI (121), no qual o bardo replica a máxima bíblica que se encontra em Êxodo 3:14, ou seja, “Eu sou o que sou”, modo como Deus teria se apresentado a Moisés. Mais autorreferente impossível!

J.A.R. – H.C.

William Shakespeare
(1564-1616)

Quem Foi Shakespeare?
(Jerônimo Teixeira)

William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon, na Inglaterra, em 1564. Nada se sabe sobre sua infância e adolescência, mas acredita-se que tenha estudado em uma boa escola local. Aos 18 anos, casou-se com Anne Hathaway, oito anos mais velha do que ele. Tiveram duas filhas, Susanna e Judith, e um filho, Hamnet, que morreu aos 11 anos de idade.

Em fins dos anos 80 ou início dos anos 90 do século 16, mudou-se para Londres, onde iria ganhar a vida como ator e dramaturgo. Não se sabe ao certo como começou a carreira. Seja como for, seu prestígio cresceu em 1594, quando passou a trabalhar na companhia de teatro Lord Chamberlain’s Men. Os teatros, na época, eram prédios de madeira, abertos no teto e circulares. O público distribuía-se em bancos ao redor do palco. Calcula-se a lotação do maior deles, o Globe, em 3 mil espectadores – Londres tinha à época 200 mil habitantes.

A produção de Shakespeare, que não durou mais de 20 anos, povoaria os palcos (e as telas) dos séculos seguintes. É o dramaturgo mais encenado do mundo e o cinema lhe paga tributo há muito tempo. Ele escreveu cerca de 40 peças, entre tragédias (Otelo, Romeu e Julieta, Rei Lear), dramas históricos (Henrique V, Ricardo III) e comédias (Muito Barulho por Nada, Sonhos de uma Noite de Verão).

Ninguém antes dele representou a natureza humana em toda a sua variedade – a paixão devastadora de Romeu e Julieta, o ciúme cego de Otelo, a ambição de Macbeth. É aí que a importância de Shakespeare ultrapassa o palco e foi por isso que o crítico americano Harold Bloom deu a um livro recente sobre Shakespeare o título de A Invenção do Humano. O motivo, diz Bloom, é que o “humano”, tal como o entendemos hoje, nunca fora tratado de maneira tão completa e complexa. Shakespeare foi o primeiro a compor personagens dotados de introversão – ao escutar a si mesmos, produzindo toda a força do monólogo shakespeareano, mudam e se desenvolvem diante dos olhos do leitor e do espectador. Hamlet é o exemplo mais acabado disso.

Shakespeare deve ser o escritor mais citado do mundo. Mesmo quem não leu Hamlet conhece o verso “Ser ou não ser, eis a questão”. Outros ressoam em títulos de escritores modernos – dois exemplos são Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e O Som e a Fúria, de William Faulkner. A importância de Shakespeare na cultura ocidental contrasta com seu descaso pela posteridade. Não se sabe de uma só peça que tenha sido publicada com sua aprovação. Elas circularam em edições piratas sem que o autor protestasse. A primeira edição respeitável de sua obra é de 1623. De fato, ele se mostrou mais preocupado com quem mexia em sua bolsa que com quem bagunçava sua poesia: seu nome consta em vários litígios, como credor e devedor.

Shakespeare morreu em Stratford, em 1616. Os fatos conhecidos sobre sua vida são muito poucos, mas as especulações compensam. Os sonetos alimentaram a imaginação de críticos e biógrafos, pois são os únicos textos em que Shakespeare discursa em primeira pessoa. Eles circularam entre amigos até serem publicados, em 1609. Os personagens recorrentes dos sonetos são cercados de mistério. O ardor com que Shakespeare dirige-se a um rapaz anônimo incendiou discussões sobre um possível homossexualismo.

As fantasias mais extravagantes dizem respeito à identidade do poeta, que foi acusado de plagiário em um panfleto escrito pelo ressentido dramaturgo Robert Greene. Também já se especulou que as peças foram escritas por algum nobre (Freud apostava no conde de Oxford), por Cristopher Marlowe ou por Francis Bacon. “Uma rosa teria o mesmo perfume com outro nome”, diria Julieta. Shakespeare é a sua obra. “Sou o que sou”, afirma o bardo no Soneto 121 – e até hoje não se conhece maior imodéstia.

Sonnet CXXI (121)

’Tis better to be vile than vile esteemed,
When not to be, receives reproach of being,
And the just pleasure lost, which is so deemed,
Not by our feeling, but by others’ seeing.
For why should others’ false adulterate eyes
Give salutation to my sportive blood?
Or on my frailties why are frailer spies,
Which in their wills count bad what I think good?
No, I am that I am, and they that level
At my abuses, reckon up their own,
I may be straight though they themselves be bevel;
By their rank thoughts, my deeds must not be shown.
Unless this general evil they maintain,
All men are bad and in their badness reign.

Soneto CXXI (121)

Melhor ser mesmo vil do que por vil ser tido,
Quando não ser recebe a acusação de ser,
E o gozo, embora justo, fica assim perdido
Ante a condenação de alheio parecer!
Por que é que os outros, tendo o olhar adulterado,
Viriam me influir no sangue sensual?
Quanto espião, do que meu erro mais errado,
Em tudo o que acho bom entende ver o mal!
Oh não! eu sou o que sou; e aqueles que imperspícuos
Censuram meu deslize, apontam seu pecado;
Posso ser reto, já que tantos são oblíquos;
Nem por mentes de lama eu devo ser julgado,
A menos que este mal sustentem ser verdade:
A humanidade é má, e exulta na maldade.

Referências:

TEIXEIRA, Jerônimo. Quem foi Shakespeare?. Superinteressante: Almanaque de Férias 2003. São Paulo, SP: Abril. Edição nº 190A, p. 142-143.

SHAKESPEARE, William. Sonnet CXXI / Soneto CXXI. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. In: __________. Sonetos. Tradução e introdução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo, SP: Hedra, 2008. p. 114 (original em inglês); p. 115 (tradução em português).

domingo, 1 de março de 2015

John Keats - Ode sobre a Melancolia

Para um tema congênere ao pessimismo da postagem anterior, transcrevemos, por ora, um belo poema do romântico inglês John Keats: será ou não a melancolia prima-irmã de toda a tristeza que perpassa o espírito humano?

O poema flui sob a forma de orientações a quem está exposto à melancolia: o paciente não há de banhar-se nas águas do Letes – rio que, na mitologia grega, simboliza o esquecimento –, não deve atentar contra a própria vida, tampouco expor-se a pensamentos por onde circulem imagens soturnas como as do escaravelho, da coruja e da falena, outras tantas metáforas do sofrimento e da morte.

O remédio para a melancolia? Contra a opressão da dor, Keats propõe o prazer da beleza, esse efêmero prazer cujo templo tem o seu altar ambientado na melancolia, “só visível a quem sorver a uva da alegria e, desse modo, em contato com o travo da tristeza, pousar mais um troféu entre as névoas da dor”.

Quer mais da imaginação romântica, leitor? Keats está no cimo dessa montanha!

J.A.R. – H.C.

John Keats
(1795-1821)

Ode on Melancholy

I

No, no, go not to Lethe, neither twist
      Wolf’s-bane, tight-rooted, for its poisonous wine;
Nor suffer thy pale forehead to be kiss’d
      By nightshade, ruby grape of Proserpine;
Make not your rosary of yew-berries,
      Nor let the beetle, nor the death-moth be
           Your mournful Psyche, nor the downy owl
A partner in your sorrow’s mysteries;
      For shade to shade will come too drowsily,
           And drown the wakeful anguish of the soul.

II

But when the melancholy fit shall fall
      Sudden from heaven like a weeping cloud,
That fosters the droop-headed flowers all,
      And hides the green hill in an April shroud;
Then glut thy sorrow on a morning rose,
      Or on the rainbow of the salt sand-wave,
           Or on the wealth of globed peonies;
Or if thy mistress some rich anger shows,
      Emprison her soft hand, and let her rave,
           And feed deep, deep upon her peerless eyes.

III

She dwells with Beauty − Beauty that must die;
      And joy, whose hand is ever at his lips
Bidding adieu; and aching Pleasure nigh,
      Turning to poison while the bee-mouth sips:
Ay, in the very temple of Delight
      Veil’d Melancholy has her sovran shrine,
           Though seen of none save him whose strenuous tongue
Can burst Joy’s grape against his palate fine;
      His soul shall taste the sadness of her might,
           And be among her cloudy trophies hung.

Melancolia
(Louis-Jean-François Lagrenée: 1724-1805)
Pintor Francês

Ode sobre a Melancolia

I

Não! Não vás para o Letes, nem tristes raízes
      Tortures para obter o vinho que te acena;
Nem no pálido rosto os beijos cicatrizes
      Da beladona, que Prosérpina envenena.
Não faças teu rosário com amoras parcas,
      Nem permitas que o escaravelho ou a falena
               Sejam tua Psique, nem que o mocho do abandono
Partilhe dos mistérios do teu ser que pena,
      Pois logo vem, de sombra em sombra, o lento sono
       Para apagar da alma insana as negras marcas.

II

Mas se acaso o veneno da melancolia
      Cair do céu, chuva de nuvens, que se espalha
Nas flores e as reflora ao som da chuva fria,
      E apaga os verdes montes no abril da mortalha,
Purga, então, o amargor numa rosa da aurora
      Ou no arco-íris entre o mar e o sal e a areia.
           Ou numa imperial peônia globular;
Ou se em tua amante algum ressentimento aflora,
      Toma-lhe as mãos e ouve o que a incendeia
             E, olhos nos olhos, colhe o seu mais belo olhar.

III

A Beleza é seu lar; Beleza que se esvai;
      A Alegria, com mãos e lábios sempre em fuga
Dizendo adeus; e o Amor que atrai e logo trai
      E é já só fel em vez do mel que a abelha suga:
Sim, pois esse amorável Templo do prazer
      Tem na Melancolia o seu nublado altar,
           Só visível a quem com a língua sorver
A uva da Alegria, lânguida, no céu
      Da boca; o travo da tristeza o irá encontrar
           E entre as névoas da dor pousar mais um troféu.

Referência:

KEATS, John. Ode on melancholy / Ode sobre a melancolia. In: CAMPOS, Augusto (sel. e trad.). Byron e Keats: entreversos. Edição bilíngue. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2009. p. 154 e 156 (original em inglês); p. 155 e 157 (tradução em português).