Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Carlos Bousoño - O poema

Eis aqui um ato de fé no poder redentor da palavra poética – uma paragem sagrada onde o efêmero torna-se eterno –, a realidade nela plasmada não tanto por sua natureza objetiva, senão pelo que, dela, restou na memória em termos de sentimentos e de recordações, urdidos numa textura fragmentária e, às vezes, incompreensível da existência humana.

 

Com efeito, o poema preserva a experiência vivida não como um texto integralmente fiel à ocorrência e sucessão dos fatos – à maneira de uma narrativa linear e perfeita –, mas como flashes entrecortados ou momentos marcantes isolados, durante os quais se evocam, em imagens oníricas e pouco nítidas, emoções intensas, pesares íntimos, lembranças sensoriais, estados d’alma, enfim, grande parte de que se compõe o passado assim como registrado pela mente.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Bousoño

(1923-2015)

 

El poema

 

A Jenaro Taléns

 

Todo está allí, y sigue estando allí, en las palabras

misteriosas, que fueron dichas, pronunciadas,

rotas en una voz de hombre. La crispación del alma,

la grave hora del pesar

más hondo. Más también

aquel otro dolor,

mínimo para todos, pero no para ti,

en la estación de lluvias, junto al portal oscuro.

O nuestro recordar una canción, a la orilla del bosque,

en la ladera suave, un momento de marzo...

 

... Todo está allí, la sombra, el esplendor

del sol entre las ramas

bajas de los cerezos,

nuestros pasos que van por el sendero

junto al seto de moras,

de niños,

un poco retrasados. Y la riña al llegar

tras la merienda, cuando no lo esperábamos.

 

... Todo está allí, la sombra del castaño

en el verano suave del norte, y el calor de las islas,

la tristeza, el ensueño, la nostalgia,

la desesperación después, cuando todo cedió

rendidamente,

el caminar postrero...

 

... Todo está allí, moviéndose o inmóvil,

tal como fue em verdad, entre neblina y leve

sueño. Tal como fue, sin conexión, escaso

de realidad, confuso

como vida de hombre.

Y pues fue así, es bien que quede así,

por siempre,

em las fíeles palabras.

 

En: “Noche del sentido” (1957)

 

Cascata II

(Wassily Kandinsky: artista russo)

 

O poema

 

A Jenaro Taléns

 

Tudo está ali, e continua ali, nas palavras

misteriosas, que foram ditas, pronunciadas,

fragmentadas numa voz de homem. A crispação da alma,

a hora grave do pesar

mais profundo. Mas também

aquela outra dor,

mínima para todos, mas não para ti,

na estação das chuvas, junto ao lôbrego portal.

Ou o nosso recordar de uma canção, à orla do bosque,

na encosta suave, em um momento de março...

 

... Tudo está ali, a sombra, o esplendor

do sol entre os ramos

baixos das cerejeiras,

nossos passos a seguirem pela vereda

junto à sebe de amoras,

de crianças,

um pouco atrasadas. E a briga ao chegarmos

após a merenda, quando assim não o esperávamos.

 

... Tudo está ali, a sombra do castanheiro

no verão suave do norte, e o calor das ilhas,

a tristeza, o devaneio, a nostalgia,

o desespero ulterior, quando tudo capitulou

resignadamente,

o derradeiro caminhar...

 

... Tudo está ali, movendo-se ou imóvel,

tal como foi em verdade, entre névoa e leve

sonho. Tal como foi, sem conexão, escasso

de realidade, confuso

como vida de homem.

E pois foi assim, é bem que fique assim,

para sempre,

nas fiéis palavras.

 

Em: “Noite do sentido” (1957)

 

Referência:

 

BOUSOÑO, Carlos. El poema. In: __________. Poesía – Antología: 1945-1993. Edición de Alejandro Duque Amusco. 2. ed. Madrid, ES: Espasa Calpe, 1995. p. 97-98. (Colección ‘Austral’; v. 313)

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