Eis aqui um ato de fé
no poder redentor da palavra poética – uma paragem sagrada onde o efêmero torna-se
eterno –, a realidade nela plasmada não tanto por sua natureza objetiva, senão
pelo que, dela, restou na memória em termos de sentimentos e de recordações, urdidos
numa textura fragmentária e, às vezes, incompreensível da existência humana.
Com efeito, o poema
preserva a experiência vivida não como um texto integralmente fiel à ocorrência
e sucessão dos fatos – à maneira de uma narrativa linear e perfeita –, mas como
flashes entrecortados ou momentos marcantes isolados, durante os quais se evocam,
em imagens oníricas e pouco nítidas, emoções intensas, pesares íntimos, lembranças
sensoriais, estados d’alma, enfim, grande parte de que se compõe o passado assim
como registrado pela mente.
J.A.R. – H.C.
Carlos Bousoño
(1923-2015)
El poema
A Jenaro Taléns
Todo está allí, y sigue estando allí, en las palabras
misteriosas, que fueron dichas, pronunciadas,
rotas en una voz de hombre. La crispación del alma,
la grave hora del pesar
más hondo. Más también
aquel otro dolor,
mínimo para todos, pero no para ti,
en la estación de lluvias, junto al portal oscuro.
O nuestro recordar una canción, a la orilla del
bosque,
en la ladera suave, un momento de marzo...
... Todo está allí, la sombra, el esplendor
del sol entre las ramas
bajas de los cerezos,
nuestros pasos que van por el sendero
junto al seto de moras,
de niños,
un poco retrasados. Y la riña al llegar
tras la merienda, cuando no lo esperábamos.
... Todo está allí, la sombra del castaño
en el verano suave del norte, y el calor de las
islas,
la tristeza, el ensueño, la nostalgia,
la desesperación después, cuando todo cedió
rendidamente,
el caminar postrero...
... Todo está allí, moviéndose o inmóvil,
tal como fue em verdad, entre neblina y leve
sueño. Tal como fue, sin conexión, escaso
de realidad, confuso
como vida de hombre.
Y pues fue así, es bien que quede así,
por siempre,
em las fíeles palabras.
En: “Noche del
sentido” (1957)
Cascata II
(Wassily Kandinsky:
artista russo)
O poema
A Jenaro Taléns
Tudo está ali, e
continua ali, nas palavras
misteriosas, que
foram ditas, pronunciadas,
fragmentadas numa voz
de homem. A crispação da alma,
a hora grave do pesar
mais profundo. Mas
também
aquela outra dor,
mínima para todos,
mas não para ti,
na estação das
chuvas, junto ao lôbrego portal.
Ou o nosso recordar
de uma canção, à orla do bosque,
na encosta suave, em um
momento de março...
... Tudo está ali, a
sombra, o esplendor
do sol entre os ramos
baixos das
cerejeiras,
nossos passos a
seguirem pela vereda
junto à sebe de
amoras,
de crianças,
um pouco atrasadas. E
a briga ao chegarmos
após a merenda,
quando assim não o esperávamos.
... Tudo está ali, a
sombra do castanheiro
no verão suave do
norte, e o calor das ilhas,
a tristeza, o
devaneio, a nostalgia,
o desespero ulterior,
quando tudo capitulou
resignadamente,
o derradeiro caminhar...
... Tudo está ali,
movendo-se ou imóvel,
tal como foi em
verdade, entre névoa e leve
sonho. Tal como foi,
sem conexão, escasso
de realidade, confuso
como vida de homem.
E pois foi assim, é
bem que fique assim,
para sempre,
nas fiéis palavras.
Em: “Noite do
sentido” (1957)
Referência:
BOUSOÑO, Carlos. El
poema. In: __________. Poesía – Antología: 1945-1993. Edición de
Alejandro Duque Amusco. 2. ed. Madrid, ES: Espasa Calpe, 1995. p. 97-98.
(Colección ‘Austral’; v. 313)
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