Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Delmore Schwartz - O Pecado de Hamlet

Tendo por lastro o dilema central de Hamlet na homônima peça de Shakespeare – a indecisão versus a ação –, Schwartz tece nestas linhas uma condensada exploração psicológica que vai além dos senões do aludido protagonista, jogando com os sentimentos de culpa, a paralisia da vontade e impossível fuga de si mesmo.

 

Em meio a uma atmosfera brumosa e evasivamente nostálgica, vislumbra-se um desejo de regressão, digo melhor, de escape a um estado de inconsciência ou de inocência prévia, longe das exigências do presente, nas quais advém um momento crucial de decisão, de assunção de responsabilidade e de ação definitiva – como o da vingança de Hamlet –, a qual passa a ser vista como algo traumático, ruidoso, violento e profundamente indesejável.

 

Como se vê, não se trata apenas de vacilação filosófica ou dúvida moral, mas de uma “culpa” (pecado) que corrói o sujeito interiormente, agora convertido em seu próprio fantasma, um ser enfermo abismado em suas vergonhas e medos, frente a frente com a pior versão de si mesmo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Delmore Schwartz

(1913-1966)

 

The Sin of Hamlet

 

The horns in the harbor booming, vaguely,

Fog, forgotten, yesterday, conclusion,

Nostalgic, noising dim sorrow, calling

To sleep is it? I think so, and childhood,

Not the door opened and the stair descended,

The voice answered, the choice announced, the

Trigger touched in sharp declaration!

 

And when it comes, escape is small; the door

Creaks; the worms of fear spread veins; the furtive

Fugitive, looking backward, sees his

Ghost in the mirror, his shameful eyes, his mouth diseased.

 

Hamlet e os coveiros

(Pascal Dagnan-Bouveret: pintor francês)

 

O Pecado de Hamlet

 

As trompas no porto a retumbarem, vagamente,

A bruma, o olvidado, o que se passou, o desenlace,

Ecos nostálgicos a ressoarem dores sombrias, porventura

Um convite ao sono? Penso que sim, e a infância,

Não a porta que se abriu e a escada que se desceu,

A voz que respondeu, a escolha que se anunciou, o

Gatilho acionado em estridente declaração!

 

E quando ele chega, quão estreita é a saída; a porta

Range; os vermes do medo espargem-se em veias;

O furtivo fugitivo, ao olhar para trás, vê no espelho

O seu fantasma, seus olhos infames, sua boca mórbida.

 

Referência:

 

SCHWARTZ, Delmore. The sin of Hamlet. In: __________. Selected poems (1938-1958) Summer Knowledge. 1st ed., 3rd print. New York, NY: New Directions, 1967. p. 35.

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