Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Laurie Sheck - O Inacabado

Diante de um universo que resiste a ser “lido” de uma forma clara e definitiva, tornamo-nos como que personagens de uma história inacabada, tratando de decifrar hieróglifos dubitáveis, enquanto o “escritor” permanece ausente: somos entidades desarrimadas, reféns de contextos reiterados de dor, debatendo-nos com uma linguagem e um mundo cujos símbolos são ambíguos e atemorizantes.

 

A ternura se converte em algo frágil e inexprimível; a percepção imparcial vai ao encontro apenas de questões sem resposta; a tecnologia, ameaçante, vibra à distância; e, fundamentalmente, agarramo-nos a um chão que não compreendemos: neste plano de existência, no qual certezas, emoções, intenções, e mesmo o destino, são verdadeiras incógnitas que resultam de equações irresolvíveis ou dificilmente solucionáveis, seríamos nós sujeitos ativos ou mero joguetes de forças maiores?

 

J.A.R. – H.C.

 

Laurie Sheck

(n. 1953)

 

The Unfinished

 

We were characters in a story

the writer couldn’t bring himself to finish.

When he left us it was late, a child

was crying, newsprint smudged on our fingertips

as if to make of us a mechanism

by which the world would repeat itself, its story:

this happened – did you hear? then that.

So many disparate versions. The terror

risen into words, shrouded there, hanging, so cold.

And the tenderness – how the words barely touched it,

as if to speak it were a further hurt.

It was night when he left us,

and the child who could not yet remember her dreams

woke saying, where are the toys of the moon,

are we the moons toys? Outside, lines

of stiff trees stood like hieroglyphs,

the configuration of the one for dagger

so close to the one that stands for shrub,

so hard to understand the difference;

or the one for fear that also could mean

reverence, the one for medicine so similar

to entreaty and to prayer.

And in the distance the red tremor

of the radio tower, and the planes that passed above us

as we held to the earth and didn’t understand the earth.

 

Árvores fantasiadas de castelo

(Marlene Llanes: artista mexicana)

 

O Inacabado

 

Éramos personagens de uma história

que o escritor não conseguia terminar.

Quando nos deixou, já era tarde, uma criança chorava,

a tinta do jornal a manchar a ponta de nossos dedos,

como se quisesse fazer de nós um mecanismo

para que o mundo redissesse a sua história, repetindo-a:

isto aconteceu – estás a par? – e, logo após, mais aquilo.

Tantas versões díspares. O terror

erigido em palavras, ali envolto, suspenso, tão frio.

E a ternura – como as palavras mal a tocavam,

como se nomeá-la fosse uma dor a mais.

Quando ele partiu, no meio da noite,

a criança, que mal recordava os seus sonhos,

despertou a indagar: “Onde estão os brinquedos da lua,

somos nós os brinquedos da lua?” Lá fora, renques

de árvores rígidas erguiam-se como hieróglifos,

a efígie representativa da adaga

tão aparentada à que representa o arbusto,

a ponto de dificilmente se perceber a diferença;

ou a do medo, que também pode significar

reverência; e mesmo a da medicina,

tão semelhante à da súplica e à da prece.

Ao longe, o tremor vermelho da torre de rádio

e os aviões que passavam por cima de nós,

enquanto nos aferrávamos à Terra e não a compreendíamos.

 

Referência:

 

SHECK, Laurie. The unfinished. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 505.

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