O mestre do simbolismo
francês urde uma tapeçaria auditiva na qual as vozes são entidades que povoam a
paisagem interior e exterior do ser humano, a exprimirem cansaço com as coisas
deste mundo – seus pecados, seus influxos mundanos – e um desejo de redenção, digo
melhor, de paz silenciosa junto à voz única e purificadora do Amor Sagrado.
Nesta viagem d’alma,
as vozes impuras e alienantes abrem espaço à voz da Oração, capaz de
transportar o homem aos domínios do divino, libertando-o das tramas
artificiosas do orgulho, do ódio, da carne, de todos os ruídos de fundo da vida
coletiva, das multidões e das convenções sociais – carentes de algum significado
em seus vaivéns obrigacionais e superficialidades.
J.A.R. – H.C.
Paul Verlaine
(1844-1896)
Les Voix
A Anatole France
Voix de l’Orgueil: un
cri puissant comme d’un cor,
Des étoiles de sang
sur des cuirasses d’or.
On trébuche à travers
des chaleurs d’incendie...
Mais en somme la voix
s’en va, comme d’un cor.
Voix de la Haine:
cloche en mer, fausse, assourdie
De neige lente. Il
fait si froid! Lourde, affadie,
La vie a peur et
court follement sur le quai
Loin de la cloche qui
devient plus assourdie.
Voix de la Chair: un
gros tapage fatigué.
Des gens ont bu. L’endroit
fait semblant d’être gai.
Des yeux, des noms,
et l’air plein de parfums atroces
Où vient mourir le
gros tapage fatigué.
Voix d’Autrui: des
lointains dans des brouillards. Des noces
Vont et viennent. Des
tas d’embarras. Des négoces,
Et tout le cirque des
civilisations
Au son trotte-menu du
violon des noces.
Colères, soupirs
noirs, regrets, tentations
Qu’il a fallu
pourtant que nous entendissions
Pour l’assourdissement
des silences honnêtes,
Colères, soupirs
noirs, regrets, tentations,
Ah, les Voix, mourez
donc, mourantes que vous êtes,
Sentences, mots en
vain, métaphores mal faites,
Toute la rhétorique
en fuite des péchés,
Ah, les Voix, mourez
donc, mourantes que vous êtes!
Nous ne sommes plus
ceux que vous auriez cherchés.
Mourez à nous, mourez
aux humbles voeux cachés
Que nourrit la
douceur de la Parole forte,
Car notre coeur n’est
plus de ceux que vous cherchez!
Mourez parmi la voix
que la Prière emporte
Au ciel, dont elle
seule ouvre et ferme la porte
Et dont elle tiendra
les sceaux au dernier jour,
Mourez parmi la voix
que la Prière apporte,
Mourez parmi la voix
terrible de l’Amour!
Dans: “Sagesse”
(1880)
As Vozes
(Gustave Moreau:
pintor francês)
As Vozes
A Anatole France
Voz do Orgulho: este
grito a estrugir feito um coro
Como estrelas de
sangue e por couraças de ouro;
Tropeça-se através de
incendiado calor...
Mas afinal a voz se
esvai como a de um coro.
Voz da Ira: sino ao
mar, falso e surdo rumor,
De neve lenta. É
frio! Grave em seu temor,
A vida corre pelos
cais em tropelia
E o sino é cada vez
mais um surdo rumor.
Voz da Carne, uma
grande e exausta algaravia;
Bebeu-se muito.
Esplende no ar vaga alegria;
Nomes, olhos e os
ares duros e anormais
Em que vem fenecer a
exausta algaravia.
Voz de Outro; as
brumas longe; e cantigas nupciais
Ouvem-se; e
confusões: e vastos carnavais
E o circo tão atroz
das civilizações
À mansidão do som dos
violinos nupciais.
Negros, suspiros,
ais, remorsos, tentações,
Nós tínhamos que
ouvir todos os seus pregões,
Só pelo ensurdecer
dos silêncios honestos,
Negros, suspiros,
ais, remorsos, tentações,
Vozes, morrei, já que
vós sois morrentes,
Metáforas malfeitas,
frases e vãos gestos,
Toda a peroração em
fuga do pecado,
Vozes, morrei, já que
vós sois morrentes estos!
Porque não somos mais
quem havíeis buscado.
Morrei a nós, como ao
manso voto ocultado
Que a Palavra mais
forte de dulçor conforta
Pois nossa alma não é
o que havíeis buscado!
Morrei em meio à luz,
a que a Prece transporta,
Ao céu de que ela
apenas abre e fecha a porta,
Terá a chave nas mãos
ao último estertor,
Morrei em meio à voz,
a que a Prece transporta,
Morrei em meio à voz
tão terrível do Amor!
Em: “Sabedoria”
(1880)
Referências:
Em Francês
VERLAINE, Paul. Les
voix. In: __________. Choix de poésies. Avec un portrait d’après Eugène
Carrière. Préface de François Coppée. Paris, FR: G. Charpentier et E. Fasquelle
Éditeurs, 1896. p. 166-168.
Em Português
VERLAINE, Paul. As
vozes. Tradução de Jamil Almansur Haddad. In: __________. Passeio sentimental:
poemas. Seleção, tradução, prefácio e notas de Jamil Almansur Haddad. 1. ed.
São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1989. p. 118-119.
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