Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Paul Verlaine - As Vozes

O mestre do simbolismo francês urde uma tapeçaria auditiva na qual as vozes são entidades que povoam a paisagem interior e exterior do ser humano, a exprimirem cansaço com as coisas deste mundo – seus pecados, seus influxos mundanos – e um desejo de redenção, digo melhor, de paz silenciosa junto à voz única e purificadora do Amor Sagrado.

 

Nesta viagem d’alma, as vozes impuras e alienantes abrem espaço à voz da Oração, capaz de transportar o homem aos domínios do divino, libertando-o das tramas artificiosas do orgulho, do ódio, da carne, de todos os ruídos de fundo da vida coletiva, das multidões e das convenções sociais – carentes de algum significado em seus vaivéns obrigacionais e superficialidades.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paul Verlaine

(1844-1896)

 

Les Voix

 

A Anatole France

 

Voix de l’Orgueil: un cri puissant comme d’un cor,

Des étoiles de sang sur des cuirasses d’or.

On trébuche à travers des chaleurs d’incendie...

Mais en somme la voix s’en va, comme d’un cor.

 

Voix de la Haine: cloche en mer, fausse, assourdie

De neige lente. Il fait si froid! Lourde, affadie,

La vie a peur et court follement sur le quai

Loin de la cloche qui devient plus assourdie.

 

Voix de la Chair: un gros tapage fatigué.

Des gens ont bu. L’endroit fait semblant d’être gai.

Des yeux, des noms, et l’air plein de parfums atroces

Où vient mourir le gros tapage fatigué.

 

Voix d’Autrui: des lointains dans des brouillards. Des noces

Vont et viennent. Des tas d’embarras. Des négoces,

Et tout le cirque des civilisations

Au son trotte-menu du violon des noces.

 

Colères, soupirs noirs, regrets, tentations

Qu’il a fallu pourtant que nous entendissions

Pour l’assourdissement des silences honnêtes,

Colères, soupirs noirs, regrets, tentations,

 

Ah, les Voix, mourez donc, mourantes que vous êtes,

Sentences, mots en vain, métaphores mal faites,

Toute la rhétorique en fuite des péchés,

Ah, les Voix, mourez donc, mourantes que vous êtes!

 

Nous ne sommes plus ceux que vous auriez cherchés.

Mourez à nous, mourez aux humbles voeux cachés

Que nourrit la douceur de la Parole forte,

Car notre coeur n’est plus de ceux que vous cherchez!

 

Mourez parmi la voix que la Prière emporte

Au ciel, dont elle seule ouvre et ferme la porte

Et dont elle tiendra les sceaux au dernier jour,

Mourez parmi la voix que la Prière apporte,

 

Mourez parmi la voix terrible de l’Amour!

 

Dans: “Sagesse” (1880)

 

As Vozes

(Gustave Moreau: pintor francês)

 

As Vozes

 

A Anatole France

 

Voz do Orgulho: este grito a estrugir feito um coro

Como estrelas de sangue e por couraças de ouro;

Tropeça-se através de incendiado calor...

Mas afinal a voz se esvai como a de um coro.

 

Voz da Ira: sino ao mar, falso e surdo rumor,

De neve lenta. É frio! Grave em seu temor,

A vida corre pelos cais em tropelia

E o sino é cada vez mais um surdo rumor.

 

Voz da Carne, uma grande e exausta algaravia;

Bebeu-se muito. Esplende no ar vaga alegria;

Nomes, olhos e os ares duros e anormais

Em que vem fenecer a exausta algaravia.

 

Voz de Outro; as brumas longe; e cantigas nupciais

Ouvem-se; e confusões: e vastos carnavais

E o circo tão atroz das civilizações

À mansidão do som dos violinos nupciais.

 

Negros, suspiros, ais, remorsos, tentações,

Nós tínhamos que ouvir todos os seus pregões,

Só pelo ensurdecer dos silêncios honestos,

Negros, suspiros, ais, remorsos, tentações,

 

Vozes, morrei, já que vós sois morrentes,

Metáforas malfeitas, frases e vãos gestos,

Toda a peroração em fuga do pecado,

Vozes, morrei, já que vós sois morrentes estos!

 

Porque não somos mais quem havíeis buscado.

Morrei a nós, como ao manso voto ocultado

Que a Palavra mais forte de dulçor conforta

Pois nossa alma não é o que havíeis buscado!

 

Morrei em meio à luz, a que a Prece transporta,

Ao céu de que ela apenas abre e fecha a porta,

Terá a chave nas mãos ao último estertor,

Morrei em meio à voz, a que a Prece transporta,

 

Morrei em meio à voz tão terrível do Amor!

 

Em: “Sabedoria” (1880)

 

Referências:

 

Em Francês

 

VERLAINE, Paul. Les voix. In: __________. Choix de poésies. Avec un portrait d’après Eugène Carrière. Préface de François Coppée. Paris, FR: G. Charpentier et E. Fasquelle Éditeurs, 1896. p. 166-168.

 

Em Português

 

VERLAINE, Paul. As vozes. Tradução de Jamil Almansur Haddad. In: __________. Passeio sentimental: poemas. Seleção, tradução, prefácio e notas de Jamil Almansur Haddad. 1. ed. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1989. p. 118-119.

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