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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Paulo Henriques Britto - Elogio do Mal

Neste tríduo poético, Britto não faz exatamente a apologia da perversidade – como à primeira vista se poderia deduzir do título da composição –, mas sim da linguagem, enquanto força transgressora vocacionada à nomeação das coisas, a corromper ou violentar a realidade para nos salvar do vazio, num esforço de atribuição conceitual que, ferindo a pureza do mundo, nos é de algum modo “bendita” por nos obsequiar sentidos.

 

Trata-se, por conseguinte, de um panegírico à força criadora e invasiva da palavra, naquilo que se presta a impor significados a um mundo fragmentado, mudo e indiferente, ampliando-nos a consciência para além da percepção bruta: de nossas bocas, incisivas disposições; de nossas bocas, aquilo que nos define e que nos salva do nada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paulo Henriques Britto

(n. 1971)

 

Elogio do Mal

 

1

 

A uma certa distância

todas as formas são boas.

Em cada coisa, um desvão;

em cada desvão não há nada.

 

À mão direita, a explicação

perfeita das coisas. À esquerda,

a certeza do inútil de tudo.

Ter duas mãos é muito pouco.

 

Por isso, por isso os nomes,

os nomes que embebem o mundo,

e os verbos se fazem carne,

e os adjetivos bárbaros.

 

2

 

O mundo se gasta aos poucos.

A coisa se basta a si mesma,

mas não basta ao que pensa

um mundo atulhado de coisas

 

que se apagam sem pudor,

que se deixam dissipar

como quem não quer nada.

Existir é muito pouco.

 

Por isso, por isso os nomes,

os nomes se engastam nas coisas

e sugam o sangue de tudo

e sobrevivem ao bagaço

 

e negam a tudo o direito

de só durar o que é duro,

e roubam do mundo a paz

de não querer dizer nada.

 

3

 

Bendita a boca,

essa ferida funda e má.

 

O mal é banal

(Marlene Dumas: artista sul-africana)

 

Referência:

 

BRITTO, Paulo Henriques. Elogio do mal. In: __________. Liturgia da matéria: poesia. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1982. p. 49-50. (Coleção “Poesia Hoje”; v. 59)

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