Neste tríduo poético,
Britto não faz exatamente a apologia da perversidade – como à primeira vista se
poderia deduzir do título da composição –, mas sim da linguagem, enquanto força
transgressora vocacionada à nomeação das coisas, a corromper ou violentar a
realidade para nos salvar do vazio, num esforço de atribuição conceitual que,
ferindo a pureza do mundo, nos é de algum modo “bendita” por nos obsequiar
sentidos.
Trata-se, por
conseguinte, de um panegírico à força criadora e invasiva da palavra, naquilo
que se presta a impor significados a um mundo fragmentado, mudo e indiferente,
ampliando-nos a consciência para além da percepção bruta: de nossas bocas,
incisivas disposições; de nossas bocas, aquilo que nos define e que nos salva
do nada.
J.A.R. – H.C.
Paulo Henriques
Britto
(n. 1971)
Elogio do Mal
1
A uma certa distância
todas as formas são
boas.
Em cada coisa, um
desvão;
em cada desvão não há
nada.
À mão direita, a
explicação
perfeita das coisas.
À esquerda,
a certeza do inútil
de tudo.
Ter duas mãos é muito
pouco.
Por isso, por isso os
nomes,
os nomes que embebem
o mundo,
e os verbos se fazem
carne,
e os adjetivos
bárbaros.
2
O mundo se gasta aos
poucos.
A coisa se basta a si
mesma,
mas não basta ao que
pensa
um mundo atulhado de
coisas
que se apagam sem
pudor,
que se deixam
dissipar
como quem não quer
nada.
Existir é muito
pouco.
Por isso, por isso os
nomes,
os nomes se engastam
nas coisas
e sugam o sangue de
tudo
e sobrevivem ao
bagaço
e negam a tudo o
direito
de só durar o que é
duro,
e roubam do mundo a
paz
de não querer dizer
nada.
3
Bendita a boca,
essa ferida funda e
má.
O mal é banal
(Marlene Dumas: artista
sul-africana)
Referência:
BRITTO, Paulo Henriques. Elogio do mal. In: __________. Liturgia da matéria: poesia. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1982. p. 49-50. (Coleção “Poesia Hoje”; v. 59)
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