O poeta transforma um
evento mundano – como uma casa colocada à venda – em eloquente metáfora do
trauma que atinge toda a família, depois da morte de um de seus membros – o pai
–, abalando os pilares que a sustentavam e deixando o cônjuge supérstite e o
filho paralisados, numa estação emocional na qual a dor se alberga nos escaninhos
de recordações ainda frescas, muitas delas porventura associadas a tensas
relações familiares.
A casa torna-se, com
efeito, símbolo do que se descarta em semelhantes contextos: na transição para
o desalojamento, os objetos inanimados – a exemplo dos móveis – parecem estar
mais “conscientes” da aspereza do processo, do que os entes que ali habitavam –
v.g., a mãe do falante, tal qual uma passageira perdida no tempo, sem saber
explicar como ali chegou, tampouco o que há de fazer agora, em meio aos temores
do que lhe reserva a solidão da viuvez.
J.A.R. – H.C.
Robert Lowell
(1917-1977)
For sale
Poor sheepish
plaything
organized with
prodigal animosity,
lived injust a year –
my Father’s cottage
at Beverly Farms
was on the market the
month he died.
Empty, open,
intimate,
its town-house
furniture
had an on tiptoe air
of waiting for the
mover
on the heels of the
undertaker.
Ready, afraid
of living alone till
eighty,
Mother mooned in a
window,
as ifshe had stayed
on a train
one stop past her
destination.
Mulher à janela
(Josef Israëls:
pintor holandês)
À venda
Pobre brinquedo
acanhado,
organizado com
pródigos ressentimentos
– aqui vivi apenas um
ano...
A casa de campo de
meu pai em Beverly Farms
estava à venda um mês
depois que ele morreu.
Vazia, aberta,
íntima,
com sua mobília
citadina,
tinha um ar de quem
caminha na ponta dos pés
seguindo o corretor
à espera do
inquilino.
Preparada, temerosa
de viver sozinha até
os oitenta,
minha mãe numa janela
– como se tivesse
permanecido no trem
uma parada além do
seu destino...
Referência:
LOWELL, Robert. For
sale / À venda. Tradução de Jorge Wanderley. In: WANDERLEY, Jorge (Seleção,
tradução e notas). Antologia da nova poesia norte-americana. Edição
bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1992. Em inglês: p. 234;
em português: p. 235.
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