Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Erik Axel Karlfeldt - Nossos pais

O Nobel sueco aqui nos fala, a princípio, de seus antepassados como figuras humildes, porém dignas e plenas – agricultores e mineiros que usufruíram vidas frugais com simplicidade, lealdade e fé –, amparados no valor do trabalho como fonte inesgotável de força ética, pelo que lhes demonstra gratidão, reconhecimento e ânimo tangível de vinculação às suas raízes – ainda que de outros modos.

 

Digo isto porque se nota certo contraste geracional entre a vida modesta do passado e as possibilidades ou tentações presentes no quotidiano do poeta, as quais, em última instância, materializaram-se em sua vocação para a arte, qual seja, a da Poesia – não exatamente um ato de traição ao espírito legado pela linhagem campesina, senão a transmutação desse espírito a uma nova forma, haja vista que a voz artística, longe de representar um gesto de recusa e de denegação, funda-se, de fato, na mesma base principiológica de labor, silêncio e tenacidade dos ancestrais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Erik Axel Karlfeldt

(1864-1931)

 

Fäderna

 

Ej finns deras namn på hävdens blad

– de levde i ringhet och frid –

men jag skönjer ändå deras långa rad

allt upp i den urgrå tid.

Ja, här i det gamla Järnbärarland

de bröto åker på älvens strand

och malm ur gruvan bredvid.

De kände ej trältjänst, förstodo ej krus,

de sutto som drottar i eget hus

och togo sitt högtidsrus.

De kysste flickor i livets vår,

en vart deras trofasta brud.

De ärade kungen, de fruktade Gud

och dogo i stillhet, mätta av år.

 

Mina fäder! I smärtans och frestelsens stund

fick jag styrka vid tanken på er.

Som ni vårdat och älskat ert ärvda pund,

vill jag småle nöjd åt vad ödet ger.

Vid njutningens vinkande överflöd

har jag tänkt på er kamp, på ert torftiga bröd:

har jag rätt att begära mer?

Det har svalkat som bad i den strömmande älv,

när mot lustan jag kämpat mig trött,

det har lärt mig att rädas mitt eget kött

mer än världens ondska och satan själv.

 

Mina fäder, jag ser er i drömmarnas stund,

och min själ blir beklämd och vek.

Jag är ryckt som en ört ur sin groningsgrund,

halvt nödd, halvt villig er sak jag svek.

Nu fångar jag toner ur sommar och höst

och ger dem visans lekande röst:

låt gå, det är också ett värv.

Men klingar det fram ur min dikt någon gång

en låt av stormsus och vattusprång,

en tanke manlig och djärv,

finns där lärkspel och vårljus från fattig hed

och suckar ur milsdjup skog –

ni ha sjungit det tyst genom många led

vid yxans klang, bakom fora och plog.

 

Família caminhando pelo jardim

(Imre Gergely: artista húngaro)

 

Nossos Pais

 

Seus nomes não figuram nas crônicas antigas,

– eles viveram na humildade e em paz –

no entanto, posso acompanhar a sua história

desde os tempos mais distanciados.

Sim, foi aqui, neste velho país do ferro

que arrotearam o campo junto à riba do rio

e foram arrancar os minerais à mina.

Ignoravam a servidão e as boas maneiras,

viviam como reis em suas próprias casas,

e se embebedavam por ocasião das festas.

Na primavera da vida, abraçavam donzelas,

e tomavam de uma para esposa fiel.

Temiam a Deus, honravam o soberano,

e morriam em silêncio, saciados de vida.

 

Nos momentos de dor, de tentação,

eu penso em vós, meus pais, pedindo forças.

Bem soubestes guardar a vossa pobre herança,

por isso é que sorrio às dádivas do destino;

e quando a ronda dos prazeres me convoca

meu pensamento se volta para o vosso pão frugal:

terei direito de reclamar algo melhor?

Como por um manancial me sinto refrescado

quando venço o desejo e me encontro aturdido,

com isso aprendo a recear mais os anseios da carne

que os encantos do mundo e mesmo que Satã.

 

Meus pais, eu vos revejo nos meus sonhos

e tenho o coração e a alma entristecidos.

Como uma planta, sinto-me arrancado

da terra que me viu germinar e crescer:

seja como for eu vos abandonei.

Recolho os sons do outono e do verão

e lhes dou uma voz suave de canção.

Mas se em meu poema ressoa por acaso

um som de tempestade, a voz de uma cascata,

um pensamento viril e destemido,

se nele ouvimos cantar a cotovia

e vemos o luar sobre a landa deserta

ou se a floresta imensa em meu canto suspira,

é que, a gerações e gerações, em silêncio,

vós já o cantastes ao som das vossas achas,

junto à vossa carreta ou ao pé de uma charrua.

 

Referências:

 

Em Sueco

 

KARLFELDT, Erik Axel. Fäderna. In: __________. Vildmarks- och kärleksvisor. Stockholm, SE: Åhlen & Söners Förlag, 1932. s. 25-27. Disponível neste endereço. Acesso em: 1º jun. 2026.

 

Em Português

 

KARLFELDT, Erik Axel. Adeus. Tradução de Ivo Barroso. In: __________. Poesias. Tradução de Ivo Barroso. Estudo introdutivo de Gunnar Brandell. Rio de Janeiro, GB: Editora Opera Mundi, 1973. p. 49-50. (“Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura”)

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