Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Mario do Carmo Vaz - Ao despertar

Mesmo tendo empreendido extensa consulta à grande rede, pouco ou quase nada obtive acerca da biografia ou da produção intelectual do autor do infratranscrito poema, senão apenas que foi um poeta goês, provavelmente de ascendência lusitana, com alguma incursão no panorama da literatura da Índia portuguesa.

 

Sobre o poema em si, revela-se marcadamente pessimista ao encetar um cotejo entre os ideais, previamente erigidos para uma vida com propósito, e a realidade a que, de fato, abeirou-se o falante.

 

É que a vida, com suas exigências de luta e trabalho, costuma fazer terra arrasada de nossos mais diletos sonhos, tornando vãos os esforços para mudar o mundo ou alcançar a glória. O resultado é uma alma exausta, submersa em desencantos, cujo espírito gradativamente se esgota frente à implacável rotina de uma vida que segue o seu curso, indiferente a tais castelos da imaginação e a malogrados esforços.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ao despertar

(Voskan Galstian: artista armênio-americano)

 

Ao despertar

 

Só eu já não tenho sonhos.

Sonhei-os todos em noites de insónia.

E tão belos os imaginei –

tão vivos, tão reais,

que até fui deus num mundo de santos,

– mundo que eu próprio criei.

 

Depois veio a Vida –

ânsia de luta, de trabalho e glória;

ideais a proclamar,

revoltas a vencer,

– dar mais sol à treva humana.

 

Mas tudo em vão, senhores!

– E fica a alma diluindo derrotas em suores.

 

A marcha da vida continua sempre a mesma.

– Só eu já não tenho sonhos.

 

Um pintor em seu ofício

(Paul Cézanne: pintor francês)

 

Referência:

 

VAZ, Mario do Carmo. Ao despertar. In: __________. A terra falou-me assim. Goa, IN: Imprensa Nacional do Estado da Índia Portuguesa, ago. 1956. p. 72.

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