Mesmo tendo
empreendido extensa consulta à grande rede, pouco ou quase nada obtive acerca
da biografia ou da produção intelectual do autor do infratranscrito poema,
senão apenas que foi um poeta goês, provavelmente de ascendência lusitana,
com alguma incursão no panorama da literatura da Índia portuguesa.
Sobre o poema em si, revela-se
marcadamente pessimista ao encetar um cotejo entre os ideais, previamente
erigidos para uma vida com propósito, e a realidade a que, de fato, abeirou-se o
falante.
É que a vida, com
suas exigências de luta e trabalho, costuma fazer terra arrasada de nossos mais diletos
sonhos, tornando vãos os esforços para mudar o mundo ou alcançar a glória. O
resultado é uma alma exausta, submersa em desencantos, cujo espírito
gradativamente se esgota frente à implacável rotina de uma vida que segue o seu
curso, indiferente a tais castelos da imaginação e a malogrados esforços.
J.A.R. – H.C.
Ao despertar
(Voskan Galstian: artista
armênio-americano)
Só eu já não tenho sonhos.
Sonhei-os todos em noites de insónia.
E tão belos os imaginei –
tão vivos, tão reais,
que até fui deus num mundo de santos,
– mundo que eu próprio criei.
Depois veio a Vida –
ânsia de luta, de trabalho e glória;
ideais a proclamar,
revoltas a vencer,
– dar mais sol à treva humana.
Mas tudo em vão, senhores!
– E fica a alma diluindo derrotas em suores.
A marcha da vida continua sempre a mesma.
– Só eu já não tenho sonhos.
Um pintor em seu
ofício
(Paul Cézanne: pintor
francês)
Referência:
VAZ, Mario do Carmo.
Ao despertar. In: __________. A terra falou-me assim. Goa, IN: Imprensa
Nacional do Estado da Índia Portuguesa, ago. 1956. p. 72.
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