Ávila levanta questões acerca dos mitos que rodeiam a poesia, tencionando desarticulá-los, para então vindicar a sua essência não na beleza sublime ou em seus sentidos mais profundos, mas sim em seu poder transgressor, limítrofe e crítico, na qualidade de um ato incômodo de resistência, de uma voz “infame” e perturbadora a insinuar-se desde as cercanias da rebeldia.
Há certo tom de mordaz
ironia nos contrastes empregados pelo poeta entre os termos franceses – a evocarem
certa sofisticação ou estereótipos – e as imagens degradantes carreadas aos
versos – migalhas, indigestão, inferno –, o que denota a sua intenção sutil de troçar
das pretensões da linguagem poética, de suas aspirações a alcançar um
significado autêntico ou perdurável no tempo.
J.A.R. – H.C.
Carlos Ávila
(n. 1955)
Poetry: The word I am
thinking of
& não será
a poesia
(femme fatale)
apenas uma palavra
dentro de outra
palavra
que não quer dizer
nada
& não será
a poesia
(femme publique)
apenas a migalha
dentro de outra
migalha:
fogo de palha
& não será
a poesia
(femme de chambre)
apenas o ar assoprado
por um aloprado
no ouvido do olvido
& não será
a poesia
(femme grosse)
apenas o resto
de um almoço
indigesto
entre convivas no
inferno
?
o que será
(une femme: infâme)
será
Retrato de jovem com adorno
nos cabelos
(Konstantin Razumov:
pintor russo)
Referência:
ÁVILA, Carlos. The
word I am thinking of. In: DANIEL, Claudio; BARBOSA, Frederico (Organização,
seleção e notas). Na virada do século: poesia de invenção no Brasil. São
Paulo, SP: Landy Editora, 2007. p. 90.
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