Jonas questiona com
ironia e argumentos lógicos a ideia de que o poeta seria como que um produtor
de beleza decorativa ou de fácil consolo, como se a poesia fosse uma qualidade
inerente a um indivíduo, em vez de ser algo que se desenvolve e se expressa através
do trabalho e da experiência. Nada, portanto, de expectativas românticas ou
utilitaristas sobre o poeta e seu ofício!
Em lugar de
satisfazer demandas externas, o poeta escolhe declamar a sua própria verdade,
por mais distante do belo ou do positivo que seja, por mais incômoda que se
mostre. Afinal, a arte – como a flor – não tem um significado ou função
intrínseca, ambos a dependerem do uso e do contexto a que diga respeito o
objeto por ela trazido à luz.
Contemplado sob tal perspectiva,
o poema, em suma, ao expressar a fadiga profunda gerada pelo próprio exercício
poético, num mundo que o mal-interpreta e o mercantiliza, acaba por converter
tal cansaço, paradoxalmente, na fonte de seu mais genuíno canto.
J.A.R. – H.C.
Daniel Jonas
(n. 1973)
O cansaço do canto
As gentes no mercado
os locais na praça
os irmãos de guerra
pedem-me poesia dizem
se és poeta deves ter
em li poesia.
Mas isso é tão
ilógico quanto dizer de alguém
que se é médico deve
ter em si humanidade
ou se bate-chapas
amor pela folha de Flandres.
Perdoai, amigos, não
sou nenhum animador de rua
nenhum entretém de
ocasião nenhum rigoletto –
ponderai se o vosso
negócio não será antes rosas
e eu providenciarei
os espinhos.
Conjurais-me por beleza.
Pois passai ao largo.
Que ideia tão
disparatada
que um poeta cante a
paixão e para aí pintassilgue
levando ao chilique
peitos arfantes
por cadarços
torturados. Estais enganados.
A lua ela mesma pode
inspirar
tanto o romântico
como o assassino (esse romântico)
e uma florista merca
tanto o decesso como o enlace.
Oh pelos cardos me
comovo evitai-me! – e pintassilgo sim
eu canto o cansaço do
canto.
Em: “Bisonte” (2016)
Pintassilgo europeu
(Karolina Kijak-Dzikońska: artista
polonesa)
Referência:
JONAS, Daniel. O
cansaço do canto. In: __________. Os fantasmas inquilinos: poemas
escolhidos. Seleção e posfácio de Mariano Marovatto. 1. ed. São Paulo, SP:
Todavia, 2019. p. 105.
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