Com o seu núcleo
temático assente no versículo bíblico “E o Verbo se fez carne”, Borges redige o
infratranscrito poema em primeira pessoa, como se fosse um testemunho de Deus
sobre a sua experiência aqui na Terra, descobrindo a matéria através dos
sentidos, acolhendo os limites da linguagem como revérberos de nossas
imperfeições, para imergir, com assombro e ternura, nas alegrias e nas dores da
condição humana.
Perceba-se que o
autor argentino, ao adentrar o cerne mesmo do mistério cristão, também transita
pelo caminho inverso da divinização do humano, ou seja, da sacralização radical
da experiência sensorial, pois que a consciência divina, ao tomar ciência de tudo
o que se passa em nossas frágeis psiques – a memória, a esperança, a vigília, o
sono, os sonhos, as lacunas –, teria internalizado nostalgias, saudades, evocações
– vivenciando-as e valorizando-as como efeito das vicissitudes terrenas pelas
quais passou o Filho do Carpinteiro.
J.A.R. – H.C.
Jorge Luis Borges
(1899-1986)
Juan I, 14 (*)
No será menos un
enigma esta hoja
que las de Mis libros
sagrados
ni aquellas otras que
repiten
las bocas ignorantes,
creyéndolas de un
hombre, no espejos
oscuros del Espíritu.
Yo que soy el Es, el
Fue y el Será,
vuelvo a condescender
al lenguaje,
que es tiempo
sucesivo y emblema.
Quien juega con un
niño juega con algo
cercano y misterioso;
yo quise jugar con Mis
hijos.
Estuve entre ellos
con asombro y ternura.
Por obra de una magia
nací curiosamente de
un vientre.
Viví hechizado,
encarcelado en un cuerpo
y en la humildad de
un alma.
Conocí la memoria,
esa moneda que no es
nunca la misma.
Conocí la esperanza y
el temor,
esos dos rostros del
incierto futuro.
Conocí la vigilia, el
sueño, los sueños,
la ignorancia, la
carne,
los torpes laberintos
de la razón,
la amistad de los
hombres,
la misteriosa
devoción de los perros.
Fui amado,
comprendido, alabado y pendí
de una cruz.
Bebí la copa hasta
las heces.
Vi por Mis ojos lo
que nunca había visto:
la noche y sus
estrellas.
Conocí lo pulido, lo
arenoso, lo desparejo,
lo áspero,
el sabor de la miel y
de la manzana,
el agua en la
garganta de la sed,
el peso de un metal
en la palma,
la voz humana, el
rumor de unos pasos
sobre la hierba,
el olor de la lluvia
en Galilea,
el alto grito de los
pájaros.
Conocí también la
amargura.
He encomendado esta
escritura
a un hombre
cualquiera;
no será nunca lo que
quiero decir,
no dejará de ser su
reflejo.
Desde Mi eternidad
caen estos signos.
Que otro, no el que
es ahora su amanuense,
escriba el poema.
Mañana seré un tigre
entre los tigres
y predicaré Mi ley a
su selva,
o un gran árbol en
Asia.
A veces pienso con
nostalgia
en el olor de esa
carpintería.
O mistério da encarnação de Crito
(Imagem sem créditos)
João I, 14
Não será menos
enigmática esta página
que as de Meus livros
sagrados
nem aquelas outras
que repetem
as bocas ignorantes,
por julgá-las de um
homem, não espelhos
obscuros do Espírito.
Eu que sou o É, o Foi
e o Será
torno a condescender
com a linguagem,
que é tempo sucessivo
e emblema.
Quem brinca com um
menino brinca com algo
próximo e misterioso;
eu quis brincar com
Meus filhos.
Estive entre eles com
assombro e ternura.
Por obra de magia
nasci curiosamente de
um ventre.
Vivi enfeitiçado,
encarcerado num corpo
e na humildade de uma
alma.
Conheci a memória,
essa moeda que não é
nunca a mesma.
Conheci a esperança e
o temor,
esses dois rostos do
incerto futuro.
Conheci a vigília, o
sono, os sonhos,
a ignorância, a
carne,
os torpes labirintos
da razão,
a amizade dos homens,
a misteriosa devoção
dos cães.
Fui amado,
compreendido, louvado e pendi
de uma cruz.
Bebi o cálice até as
fezes.
Vi por Meus olhos o
que nunca havia visto:
a noite e suas estrelas.
Conheci o polido, o
arenoso, o díspar, o áspero,
o sabor do mel e da
maçã,
a água na garganta da
sede,
o peso de um metal na
palma,
a voz humana, o rumor
de uns passos
sobre a relva,
o odor da chuva na
Galileia,
o alto grito dos
pássaros.
Conheci também a
amargura.
Encomendei esta
escrita a um homem qualquer;
nunca será o que
desejo dizer,
não deixará de ser
seu reflexo.
De Minha eternidade
caem estes signos.
Que outro, não o que
é agora seu amanuense,
escreva o poema.
Amanhã serei um tigre
entre os tigres
e predicarei Minha
lei a sua selva,
ou uma grande árvore
na Ásia.
Às vezes penso com
nostalgia
no odor dessa
carpintaria.
Nota:
(*). João I, 14: “E o
Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua
glória, a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”
Referências:
Em Espanhol
BORGES, Jorge Luis.
Juan I, 14. In: __________. Obras completas. Vol. I: 1923-1972. Buenos
Aires, AR: Emecé Editores, sep. 1984. p. 977-978.
Em Português
BORGES, Jorge Luis.
João 1, 14. Tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques. In: __________. Elogio
da sombra. Tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques. Prefácio de Jorge Schwartz.
2. ed. revista. São Paulo, SP: Globo, 2001. p. 21-22.
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