Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 17 de maio de 2026

Jorge Luis Borges - João I, 14

Com o seu núcleo temático assente no versículo bíblico “E o Verbo se fez carne”, Borges redige o infratranscrito poema em primeira pessoa, como se fosse um testemunho de Deus sobre a sua experiência aqui na Terra, descobrindo a matéria através dos sentidos, acolhendo os limites da linguagem como revérberos de nossas imperfeições, para imergir, com assombro e ternura, nas alegrias e nas dores da condição humana.

 

Perceba-se que o autor argentino, ao adentrar o cerne mesmo do mistério cristão, também transita pelo caminho inverso da divinização do humano, ou seja, da sacralização radical da experiência sensorial, pois que a consciência divina, ao tomar ciência de tudo o que se passa em nossas frágeis psiques – a memória, a esperança, a vigília, o sono, os sonhos, as lacunas –, teria internalizado nostalgias, saudades, evocações – vivenciando-as e valorizando-as como efeito das vicissitudes terrenas pelas quais passou o Filho do Carpinteiro.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Luis Borges

(1899-1986)

 

Juan I, 14 (*)

 

No será menos un enigma esta hoja

que las de Mis libros sagrados

ni aquellas otras que repiten

las bocas ignorantes,

creyéndolas de un hombre, no espejos

oscuros del Espíritu.

Yo que soy el Es, el Fue y el Será,

vuelvo a condescender al lenguaje,

que es tiempo sucesivo y emblema.

Quien juega con un niño juega con algo

cercano y misterioso;

yo quise jugar con Mis hijos.

Estuve entre ellos con asombro y ternura.

Por obra de una magia

nací curiosamente de un vientre.

Viví hechizado, encarcelado en un cuerpo

y en la humildad de un alma.

Conocí la memoria,

esa moneda que no es nunca la misma.

Conocí la esperanza y el temor,

esos dos rostros del incierto futuro.

Conocí la vigilia, el sueño, los sueños,

la ignorancia, la carne,

los torpes laberintos de la razón,

la amistad de los hombres,

la misteriosa devoción de los perros.

Fui amado, comprendido, alabado y pendí

de una cruz.

Bebí la copa hasta las heces.

Vi por Mis ojos lo que nunca había visto:

la noche y sus estrellas.

Conocí lo pulido, lo arenoso, lo desparejo,

lo áspero,

el sabor de la miel y de la manzana,

el agua en la garganta de la sed,

el peso de un metal en la palma,

la voz humana, el rumor de unos pasos

sobre la hierba,

el olor de la lluvia en Galilea,

el alto grito de los pájaros.

Conocí también la amargura.

He encomendado esta escritura

a un hombre cualquiera;

no será nunca lo que quiero decir,

no dejará de ser su reflejo.

Desde Mi eternidad caen estos signos.

Que otro, no el que es ahora su amanuense,

escriba el poema.

Mañana seré un tigre entre los tigres

y predicaré Mi ley a su selva,

o un gran árbol en Asia.

A veces pienso con nostalgia

en el olor de esa carpintería.

 

O mistério da encarnação de Crito

(Imagem sem créditos)

 

João I, 14

 

Não será menos enigmática esta página

que as de Meus livros sagrados

nem aquelas outras que repetem

as bocas ignorantes,

por julgá-las de um homem, não espelhos

obscuros do Espírito.

Eu que sou o É, o Foi e o Será

torno a condescender com a linguagem,

que é tempo sucessivo e emblema.

Quem brinca com um menino brinca com algo

próximo e misterioso;

eu quis brincar com Meus filhos.

Estive entre eles com assombro e ternura.

Por obra de magia

nasci curiosamente de um ventre.

Vivi enfeitiçado, encarcerado num corpo

e na humildade de uma alma.

Conheci a memória,

essa moeda que não é nunca a mesma.

Conheci a esperança e o temor,

esses dois rostos do incerto futuro.

Conheci a vigília, o sono, os sonhos,

a ignorância, a carne,

os torpes labirintos da razão,

a amizade dos homens,

a misteriosa devoção dos cães.

Fui amado, compreendido, louvado e pendi

de uma cruz.

Bebi o cálice até as fezes.

Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:

a noite e suas estrelas.

Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,

o sabor do mel e da maçã,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma,

a voz humana, o rumor de uns passos

sobre a relva,

o odor da chuva na Galileia,

o alto grito dos pássaros.

Conheci também a amargura.

Encomendei esta escrita a um homem qualquer;

nunca será o que desejo dizer,

não deixará de ser seu reflexo.

De Minha eternidade caem estes signos.

Que outro, não o que é agora seu amanuense,

escreva o poema.

Amanhã serei um tigre entre os tigres

e predicarei Minha lei a sua selva,

ou uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com nostalgia

no odor dessa carpintaria.

 

Nota:

 

(*). João I, 14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

BORGES, Jorge Luis. Juan I, 14. In: __________. Obras completas. Vol. I: 1923-1972. Buenos Aires, AR: Emecé Editores, sep. 1984. p. 977-978.

 

Em Português

 

BORGES, Jorge Luis. João 1, 14. Tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques. In: __________. Elogio da sombra. Tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques. Prefácio de Jorge Schwartz. 2. ed. revista. São Paulo, SP: Globo, 2001. p. 21-22.

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