Em imagens com
matizes surrealistas, Pizarnik plasma a experiência de um “eu” radicalmente isolado,
povoado pela morte e por agônicas vozes íntimas, desconectado da luz e da naturalidade
do mundo exterior: a identidade é uma carga, os intentos de conexão são
absurdos e frustrantes, e a única relação possível com o seu mundo privativo é
a autodestruição e o escárnio do que ainda resta de seus “enfermiços” ideais.
Trata-se, como se vê,
de um testemunho poético devastador da poetisa argentina sobre a fragilidade
humana diante do abismo interior: não há esperança de fuga à “jaula” da mente,
da psique ferida, do poço da depressão, bem assim da consequente angústia
existencial; somente a nua constatação da dor, o grito na escuridão e a tortura
autoimposta aos frágeis remanescentes da subjetividade.
J.A.R. – H.C.
Alejandra Pizarnik
(1936-1972)
Afuera hay sol.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.
Yo no sé del sol.
Yo sé la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.
Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.
Afuera hay sol.
Yo me visto de
cenizas.
En: “Las aventuras
perdidas” (1958)
O Terapeuta
(René Magritte:
artista belga)
A jaula
Lá fora há o sol.
Não é mais que um sol
mas os homens o contemplam
e logo põem-se a
cantar.
Eu nada sei do sol.
Conheço a melodia do
anjo
e o sermão ardente
do último vento.
Sei gritar até a
aurora
quando a morte pousa
nua
em minha sombra.
Choro sob o meu
próprio nome.
Agito lenços na noite
e barcos sedentos de
realidade
dançam comigo.
Escondo pregos
para escarnecer de
meus sonhos enfermos.
Lá fora há o sol.
E eu meu visto de
cinzas.
Em: “Aventuras
perdidas” (1958)
Referência:
PIZARNIK, Alejandra.
La jaula. In: __________. Antología de la poesía cósmica y tanática de
Alejandra Pizarnik. Organización de Fredo Arias de la Canal. México, D.F.:
Frente de Afirmación Hispanista, 2003. p. 37.
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