Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Alejandra Pizarnik - A jaula

Em imagens com matizes surrealistas, Pizarnik plasma a experiência de um “eu” radicalmente isolado, povoado pela morte e por agônicas vozes íntimas, desconectado da luz e da naturalidade do mundo exterior: a identidade é uma carga, os intentos de conexão são absurdos e frustrantes, e a única relação possível com o seu mundo privativo é a autodestruição e o escárnio do que ainda resta de seus “enfermiços” ideais.

 

Trata-se, como se vê, de um testemunho poético devastador da poetisa argentina sobre a fragilidade humana diante do abismo interior: não há esperança de fuga à “jaula” da mente, da psique ferida, do poço da depressão, bem assim da consequente angústia existencial; somente a nua constatação da dor, o grito na escuridão e a tortura autoimposta aos frágeis remanescentes da subjetividade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alejandra Pizarnik

(1936-1972)

 

La jaula

 

Afuera hay sol.

No es más que un sol

pero los hombres lo miran

y después cantan.

 

Yo no sé del sol.

Yo sé la melodía del ángel

y el sermón caliente

del último viento.

Sé gritar hasta el alba

cuando la muerte se posa desnuda

en mi sombra.

 

Yo lloro debajo de mi nombre.

Yo agito pañuelos en la noche

y barcos sedientos de realidad

bailan conmigo.

Yo oculto clavos

para escarnecer a mis sueños enfermos.

 

Afuera hay sol.

Yo me visto de cenizas.

 

En: “Las aventuras perdidas” (1958)

 

O Terapeuta

(René Magritte: artista belga)

 

A jaula

 

Lá fora há o sol.

Não é mais que um sol

mas os homens o contemplam

e logo põem-se a cantar.

 

Eu nada sei do sol.

Conheço a melodia do anjo

e o sermão ardente

do último vento.

Sei gritar até a aurora

quando a morte pousa nua

em minha sombra.

 

Choro sob o meu próprio nome.

Agito lenços na noite

e barcos sedentos de realidade

dançam comigo.

Escondo pregos

para escarnecer de meus sonhos enfermos.

 

Lá fora há o sol.

E eu meu visto de cinzas.

 

Em: “Aventuras perdidas” (1958)

 

Referência:

 

PIZARNIK, Alejandra. La jaula. In: __________. Antología de la poesía cósmica y tanática de Alejandra Pizarnik. Organización de Fredo Arias de la Canal. México, D.F.: Frente de Afirmación Hispanista, 2003. p. 37.

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