Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 26 de maio de 2026

Mauro Mendes - Mar Obsoleto

Nestas linhas, de tom merencório, o poeta cria um diálogo intertextual profundamente lírico com os versos introdutórios do poema “Mar Absoluto”, de Cecília Meireles, tencionando uma perceptível conexão homográfica (e quase homofônica) a partir do título que lhe atribui – Mar Obsoleto –, como se o projetasse com imagens invertidas num espelho.

 

Enquanto em Meireles o mar é uma força ativa que impele o sujeito – como multidões passadas a empurrar um “barco esquecido” –, em Mendes ele converge a um cenário passivo – “revolto” apenas na superfície, mas indiferente, cujas “respostas” são “mudas”. Tem-se aí o trespasse de um “absoluto” metafísico e esperançoso a um “obsoleto” existencial, um tíbio relicário no imo do ser.

 

Veja-se que a ênfase em “Agora, sou apenas memória” entra em ressonância direta com o aludido título: se o mar torna-se “obsoleto” – sem função simbólica ativa –, o sujeito lírico reverbera “apenas memória” – um inerte repositório do passado, sem dinâmica sobre os dias que correm –, ambos a coexistirem doravante num estado de sobrevivência, para além de quaisquer significados.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mauro Mendes

(n. 1972)

 

Mar Obsoleto

 

“Foi desde sempre o mar.

E multidões passadas me empurravam

como a barco esquecido”.

(Cecília Meireles - Mar Absoluto)

 

Diante deste mar revolto,

que, outrora, simbolizou

a esperança de um tempo,

estou sozinho e calmo.

Agora, já não penso,

sou apenas memória,

lembrança de outros caminhos,

que se perderam

no próprio caminho do vento.

Tento, em vão, recompô-los

e presto atenção às ondas,

se quebrando nos rochedos,

trazendo conchas e búzios,

respostas mudas do mar.

O pensamento é como a água-viva,

atirada na areia,

misteriosa e sedutora.

Quem ousaria romper

o seu invólucro transparente

e suportar a ardente ferida,

por puro descaso?

Não! Deixa-o dormir,

longe da praia,

numa profundidade de algas,

num emaranhado de algas,

numa discreta espessura e consistência de algas...

Deixa-o dormir!

Agora, sou apenas memória.

 

Jornada musical de violinos e águas-vivas

(Alex Levin: artista ucraniano)

 

Referência:

 

MENDES, José Mauro Oliveira. Mar obsoleto. In: __________. Garatujas - Um contorno de sombra. São Paulo, SP: Scortecci, 2015. p. 77.

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