Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 3 de maio de 2026

Murilo Mendes - O visionário

Explorando uma constante tensão entre a aspiração espiritual e a mais crua realidade social, “o visionário”, por meio de imagens etéreas, sugere uma presença divina e consoladora – a evocar um ideal de beleza, pureza e esperança –, confrontada, nada obstante, pela justaposição de fantasmas, sombras e presságios de violência que emergem à meia-noite e em sítios oprimentes.

 

A alternância entre luzes e sombras, dia e noite, reforça o tema de oposição entre o sagrado e o profano num cenário que tem algo de apocalíptico, cujos traços vão em linha com palpáveis denúncias de injustiças e desumanização presentes no quotidiano, refletindo as contradições de uma sociedade na qual proliferam práticas de imparidades, senão de indiferenças, propensas a levar a um mundo de disparidades e de misérias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Murilo Mendes

(1901-1975)

 

O visionário

 

Eu vi os anjos nas cidades claras,

Nas brancas praças do país do sol.

Eu vi os anjos no meio-dia intenso,

Na nuvem indecisa e na onda sensual.

 

À meia-noite convoquei fantasmas,

Corri igrejas de cidades mortas,

Esperei a dama de veludo negro,

Esperei a sonâmbula da visão da ópera:

 

Na manhã aberta é que vi os fantasmas

Arrastando espadas nos lajedos frios:

Ao microfone eles soltavam pragas.

Vi o carrasco do faminto, do órfão,

 

Deslizando, soberbo, na carruagem.

O que renegou a Deus na maldição,

Vi o espírito mau solto nas ruas,

Cortando os ares com seus gládios em sangue.

 

Vi o recém-nascido asfixiado

Por seus irmãos, à luz crua do sol.

Vi atirarem ao mar sacos de trigo

E no cais um homem a morrer de inanição.

 

À luz do dia foi que eu vi fantasmas,

Nas vastas praças do país do amor,

E também anjos no meio-dia intenso,

Que me consolam da visão do mal.

 

Em: “As Metamorfoses” (1944)

 

Anjos do Bem e do Mal

(William Blake: poeta e pintor inglês)

 

Referência:

 

MENDES, Murilo. O visionário. In: __________. Antologia poética. Organização de Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2014. p. 84.

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