Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 10 de maio de 2026

Julia Kasdorf - O que aprendi com minha mãe

Neste dia dedicado às mães, trago aos leitores deste blog a versão ao português deste belo poema da poetisa norte-americana, a rememorar os momentos por ela vivenciados com a própria mãe, dispensados a confortar os outros frente à dor e ao sofrimento, o que torna mais ostensiva a mensagem que pretende transmitir, vale dizer, a da importância do cultivo da empatia, da generosidade e da compaixão.

 

Os versos transmitem a ideia de que muito do amor se manifesta por intermédio de uma prática concreta e transformadora, arraigada nos gestos quotidianos – muitas vezes transmitidos de geração a geração – e nos rituais comunitários atrelados à ética da responsabilidade e do convívio solidário – forma de linguagem que se evidencia quer pela força silenciosa da presença, quer ainda pelos pequenos gestos de bem-querer, refertos de eficácia simbólica.

 

J.A.R. – H.C.

 

Julia Kasdorf

(n. 1962)

 

What I learned from my mother

 

I learned from my mother how to love

the living, to have plenty of vases on hand

in case you have to rush to the hospital

with peonies cut from the lawn, black ants

still stuck to the buds. I learned to save jars

large enough to hold fruit salad for a whole

grieving household, to cube home-canned pears

and peaches, to slice through maroon grape skins

and flick out the sexual seeds with a knife point.

I learned to attend viewings even if I didn’t know

the deceased, to press the moist hands

of the living, to look in their eyes and offer

sympathy, as though I understood loss even then.

I learned that whatever we say means nothing,

what anyone will remember is that we came.

I learned to believe I had the power to ease

awful pains materially like an angel.

Like a doctor, I learned to create

from another’s suffering my own usefulness, and once

you know how to do this, you can never refuse.

To every house you enter, you must offer

healing: a chocolate cake you baked yourself,

the blessing of your voice, your chaste touch.

 

Colhendo flores

(Helen Galloway McNicoll: pintora canadense)

 

O que aprendi com minha mãe

 

Aprendi com minha mãe a como amar

os vivos, a ter muitos vasos à mão

para o caso de ter que correr ao hospital

com peônias cortadas à céspede, formigas negras

ainda agarradas aos botões. Aprendi a guardar frascos

grandes o suficiente para guardar salada de frutas

para toda uma família enlutada, a cortar peras e pêssegos

enlatados em cubos, a remover a pele granadina das uvas

para extrair as sementes sexuadas com a ponta de uma faca.

Aprendi a comparecer aos funerais mesmo sem conhecer

os falecidos, a apertar as mãos úmidas

dos vivos, a olhar em seus olhos e a lhes oferecer

compaixão, como se já nessa altura compreendesse a perda.

Aprendi que, digamos o que digamos, isso nada significa,

pois o que todos hão de recordar é que ali estivemos.

Aprendi a acreditar que, como um anjo, tinha o poder

de aliviar dores terríveis de modo palpável.

Como um médico, a partir do sofrimento alheio, aprendi

a consolidar o meu próprio préstimo, e uma vez que

se saiba como o fazer, já não se pode recusá-lo.

Em cada lar que entrares, deves oferecer

a cura: um bolo de chocolate que tu mesmo fizeste,

a bênção da tua voz, o teu toque casto.

 

Referência:

 

KASDORF, Julia. What I learned from my mother. In: KEILLOR, Garrison (Sel. & Intr.). Good poems. New York, NY: Penguin, 2003. p. 156.

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