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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Mario Benedetti - Certificado de existência

Este poema de Benedetti expõe o absurdo de se depender de um papel para se provar o óbvio – a existência humana –, reduzindo-a a um trâmite mediado por registros estatais: se equivalente o nomeado “certificado de existência” ao nosso RG, à Prova de Vida do INSS ou a outro documento assemelhado, pouco importa, o que o poeta busca satirizar, a sério, é a necessidade recorrente de uma validação burocrática para se convalidar o que, de si, é algo autoevidente.

 

Parece-lhe paradoxal a ideia de que a ausência de tal reconhecimento oficial possa equivaler, no plano social, à não-existência, implicando a desumanização de todos aqueles que o sistema não certifica e que, por conseguinte, ignora, lançando-os num processo de exclusão e de invisibilização social, numa censurável inversão de valores em favor de uma realidade “certificada”, em detrimento do sentido intrínseco de uma realidade de fato “vivida”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mario Benedetti

(1920-2009)

 

Cerificado de existencia

 

Ah ¿quién me salvará de existir?

                     (Fernando Pessoa)

 

Dijo el fulano presuntuoso /

hoy en el consulado

obtuve el habitual

certificado de existencia

consta aquí que estoy vivo

de manera que basta de calumnias

este papel soberbio / irrefutable

atestigua que existo

 

si me enfrento al espejo

y mi rostro no está

aguantaré sereno

despejado

 

¿no llevo acaso en la cartera

mi recién adquirido

mi flamante

certificado de existencia?

 

vivir / después de todo

no es tan fundamental

 

lo importante es que alguien

debidamente autorizado

certifique que uno

probadamente existe

 

cuando abro el diario y leo

mi propia necrológica

me apena que no sepan

qu estoy en condiciones

de mostrar dondequiera

y a quien sea

un vigente prolijo y minucioso

certificado de existencia

 

existo luego pienso

¿cuántos zutanos andan por la calle

creyendo que están vivos

cuando en rigor carecen del genuino

irremplazable

soberano

certificado de existencia?

 

En: “Las soledades de Babel” (1990-1991)

 

O cidadão

(Richard Hamilton: pintor inglês)

 

Certificado de existência

 

Ah, quem me salvará de existir?

                    (Fernando Pessoa)

 

Disse o fulano presunçoso

hoje no consulado:

obtive o costumeiro

certificado de existência.

Consta aqui que estou vivo,

de modo que basta de calúnias.

Este papel soberbo, irrefutável,

atesta que existo.

 

Se me encaro no espelho

e meu rosto não aparece,

aguentarei sereno,

imperturbado.

 

Não levo na carteira, porventura,

meu recém adquirido,

meu flamante,

certificado de existência?

 

Viver, afinal de contas,

não é tão fundamental.

 

O importante é que alguém,

devidamente autorizado,

certifique que um sujeito

comprovadamente existe.

 

Quando abro o jornal e leio

meu próprio obituário,

entristece-me que não saibam

que estou em condições

de mostrar em qualquer lugar,

a quem quer que seja,

um vigente, prolixo e minucioso

certificado de existência

 

Existo, logo penso.

Quantos beltranos andam pela rua

acreditando que estão vivos,

quando a rigor carecem do genuíno,

insubstituível,

soberano,

certificado de existência?

 

Em: “As solidões de Babel” (1990-1991)

 

Referência:

 

BENEDETTI, Mario. Certificado de existencia. In: __________. Antología poética. Introducción de Pedro Orgambide. Selección del autor. 4. ed., 8. reimp. Madrid, ES: Alianza Editorial, 2017. p. 291-292.

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