Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Octavio Paz - A palavra escrita

O ensaísta mexicano explora os abismos da linguagem e da consciência, apresentando-nos um poema sobre a experiência do nascimento, da queda e do caráter paradoxal da palavra escrita, sempre a nascer de uma traição necessária à mais pura intenção, com o consequente congelamento do fluxo de tal ato criador, derivativo manifesto da exaustão de sua própria magia.

 

A escrita tenciona medir, capturar, dar sentido cronológico ao efêmero, à queda inevitável: nesse salto para o poço da linguagem, o poeta busca capturar um reflexo da realidade que, ao ser fixado, se desintegra e, ainda assim, persiste numa palavra que nem é a última, nem é a verdadeira, mas é a que se tem para podermos nos sustentar sobre o abismo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Octavio Paz

(1914-1998)

 

La palabra escrita

 

Ya escrita la primera

Palabra (nunca la pensada

Sino la otra – ésta

Que no la dice, que la contradice,

Que sin decirla está diciéndola)

Ya escrita la primera

Palabra (uno, dos, três –

Arriba el sol, tu cara

En el centro del pozo,

Fija como un sol atónito)

Ya escrita la primera

Palabra (cuatro, cinco –

No acaba de caer la piedrecilla,

Mira tu cara mientras cae, cuenta

La cuenta vertical de la caída)

Ya escrita la primera

Palabra (hay otra, abajo,

No la que está cayendo,

La que sostiene al rostro, al sol, al tiempo

Sobre el abismo: la palabra

Antes de la caída y de la cuenta)

Ya escrita la primera

Palabra (dos, tres, cuatro –

Verás tu rostro roto,

Verás un sol que se dispersa,

Verás la piedra entre las aguas rotas,

Verás el mismo rostro, el mismo sol,

Fijo sobre las mismas aguas)

Ya escrita la primera

Palabra (sigue,

No hay más palabras que las de la cuenta)

 

En: “Salamandra” (1958-1961)

 

Sol ardente

(Jaison Cianelli: artista norte-americano)

 

A palavra escrita

 

Já escrita a primeira

Palavra (nunca a pensada

mas a outra – esta

Que não a diz, que a contradiz,

Que sem dizê-la a está dizendo)

Já escrita a primeira

Palavra (um, dois, três –

Lá em cima o sol, teu rosto

No centro do poço,

Fixo como um sol atônito)

Já escrita a primeira

Palavra (quatro, cinco –

Segue em queda a pedrinha,

Olha o teu rosto enquanto cai, conta

a medida vertical da sua queda)

Já escrita a primeira

Palavra (há outra, lá embaixo,

Não a que está caindo,

A que sustenta o rosto, o sol, o tempo

Sobre o abismo: a palavra

Antes da queda e da conta)

Já escrita a primeira

Palavra (dois, três, quatro –

Verás teu rosto disforme,

Verás um sol que se dispersa,

Verás a pedra entre as águas serpeantes,

Verás o mesmo rosto, o mesmo sol,

Fixo sobre as mesmas águas)

Já escrita a primeira

Palavra (continua,

Não há mais palavras que as da conta)

 

Em: “Salamandra” (1958-1961)

 

Referência:

 

PAZ, Octavio. La palabra escrita. In: __________. La centena: poemas (1935-1968). Barcelona, ES: Barral Editores, sept. 1969. p. 128-129.

Nenhum comentário:

Postar um comentário