Trevisan nos oferece
um canto à persistência do espírito humano em sua busca por sentido, inclusive
quando esse sentido se revela elusivo e a jornada termina no completo olvido de
si mesmo: a imagem da fonte que esquece os seus caminhos parece-nos sugerir o
retorno a um estado primordial, de aceitação serena da finitude, uma forma
derradeira de se “amar a vida” – ao mesmo tempo fugaz e pungente em seu secreto
esplendor.
O autor nos fala de
um amor que exige coragem para persistirmos na procura pela beleza no insignificante
e no oculto, para aceitarmos o mistério – e até mesmo o absurdo – com gratidão,
ainda que sejamos mil vezes assaltados por angústias excruciantes, de nos
sabermos próximos aos umbrais da morte, tendo passado eventualmente pela vida dominados
por frívolos interesses.
J.A.R. – H.C.
Armindo Trevisan
(n. 1933)
A Fonte
É preciso amar a
vida, amar
no lodo o seu fulgor
secreto,
o fulgor que tem a
sua imensa sala
quando o ruído do
longínquo sobe
até ao coração que se
debruça para
o fio de erva que
balança a água,
ou o bico do flamingo
avermelhado
apunhalando um dia de
sol a pino.
É preciso que a
própria mão recuse
a insolência dos
prazeres turbulentos,
e aceite a misteriosa
apalpação
da pedra sobre a qual
a lua reclina
a cabeça nos bosques
excluídos.
Ah! O próprio amor,
se quiser restar,
é constrangido à
viagem para o absurdo,
para o barril das
pólvoras suaves
onde os corpos são
tangidos por dentro
naquelas fibras em
que o êxtase carnal
não reluz, a não ser
ligado à asa
do que não está na mão
do homem, hoje.
É preciso amar a
vida, amá-la,
desejá-la sem tréguas
diferente,
buscá-la onde ela não
existe, ou
apenas começou a dar
um salto
para a pequena
plenitude que, em vão,
tentará enriquecer
com os detritos
de seu vácuo de
origem. Oh, a vida
é uma coisa
imensamente restituída,
e todo o seu calor, e
toda a sua vertigem
de encanto reside no
seu mover-se
contínuo entre o que
ela oferece aos seus
e o que, sabiamente,
lhes esconde,
justamente por não
possuir em si a flecha
que anda na direção
do seu alvo,
ignorando que este
nasceu para não ser
atingido. É preciso
amar a vida, até
quando nela o coração
se sente opresso
e tudo nele são fumos
de morte,
porque um simples
favo de mel, uma posta
de peixe, uma côdea
azul de pão,
um reflexo miraculoso
de vinho novo,
abalam o agonizante
que entrevê
pela janela a soberba
frivolidade
de haver vivido, de
haver vivido à toa,
o suficiente para uma
alma desaparecer
com um misto de
vexame e gratidão,
e levar a sua
inquietude, talvez mansa,
até ao umbral de
extinção, quando a face
do homem se dobra
sobre si mesma, à guisa
de uma fonte que
esqueceu todos os caminhos.
Em: “A Imploração do
Nada” (1971)
O Jardim do Éden
Painel à esquerda de “O Jardim das Delícias Terrenas”
(Hieronymus Bosch:
pintor holandês)
Referência:
TREVISAN, Armindo. A fonte. In: __________. Nova antologia poética: 1967-2001. Porto Alegre, RS: Sulina, 2001. p. 26-27.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário