Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Armindo Trevisan - A Fonte

Trevisan nos oferece um canto à persistência do espírito humano em sua busca por sentido, inclusive quando esse sentido se revela elusivo e a jornada termina no completo olvido de si mesmo: a imagem da fonte que esquece os seus caminhos parece-nos sugerir o retorno a um estado primordial, de aceitação serena da finitude, uma forma derradeira de se “amar a vida” – ao mesmo tempo fugaz e pungente em seu secreto esplendor.

 

O autor nos fala de um amor que exige coragem para persistirmos na procura pela beleza no insignificante e no oculto, para aceitarmos o mistério – e até mesmo o absurdo – com gratidão, ainda que sejamos mil vezes assaltados por angústias excruciantes, de nos sabermos próximos aos umbrais da morte, tendo passado eventualmente pela vida dominados por frívolos interesses.

 

J.A.R. – H.C.

 

Armindo Trevisan

(n. 1933)

 

A Fonte

 

É preciso amar a vida, amar

no lodo o seu fulgor secreto,

 

o fulgor que tem a sua imensa sala

quando o ruído do longínquo sobe

 

até ao coração que se debruça para

o fio de erva que balança a água,

 

ou o bico do flamingo avermelhado

apunhalando um dia de sol a pino.

 

É preciso que a própria mão recuse

a insolência dos prazeres turbulentos,

 

e aceite a misteriosa apalpação

da pedra sobre a qual a lua reclina

 

a cabeça nos bosques excluídos.

Ah! O próprio amor, se quiser restar,

 

é constrangido à viagem para o absurdo,

para o barril das pólvoras suaves

 

onde os corpos são tangidos por dentro

naquelas fibras em que o êxtase carnal

 

não reluz, a não ser ligado à asa

do que não está na mão do homem, hoje.

 

É preciso amar a vida, amá-la,

desejá-la sem tréguas diferente,

 

buscá-la onde ela não existe, ou

apenas começou a dar um salto

 

para a pequena plenitude que, em vão,

tentará enriquecer com os detritos

 

de seu vácuo de origem. Oh, a vida

é uma coisa imensamente restituída,

 

e todo o seu calor, e toda a sua vertigem

de encanto reside no seu mover-se

 

contínuo entre o que ela oferece aos seus

e o que, sabiamente, lhes esconde,

 

justamente por não possuir em si a flecha

que anda na direção do seu alvo,

 

ignorando que este nasceu para não ser

atingido. É preciso amar a vida, até

 

quando nela o coração se sente opresso

e tudo nele são fumos de morte,

 

porque um simples favo de mel, uma posta

de peixe, uma côdea azul de pão,

 

um reflexo miraculoso de vinho novo,

abalam o agonizante que entrevê

 

pela janela a soberba frivolidade

de haver vivido, de haver vivido à toa,

 

o suficiente para uma alma desaparecer

com um misto de vexame e gratidão,

 

e levar a sua inquietude, talvez mansa,

até ao umbral de extinção, quando a face

 

do homem se dobra sobre si mesma, à guisa

de uma fonte que esqueceu todos os caminhos.

 

Em: “A Imploração do Nada” (1971)

 

O Jardim do Éden

Painel à esquerda de “O Jardim das Delícias Terrenas”

(Hieronymus Bosch: pintor holandês)

 

Referência:

 

TREVISAN, Armindo. A fonte. In: __________. Nova antologia poética: 1967-2001. Porto Alegre, RS: Sulina, 2001. p. 26-27.

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