Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 30 de maio de 2026

Rainer Maria Rilke - Dia de outono

Na simbologia da virada do verão ao outono, o poeta retrata a universalidade por que passa o ser humano frente ao seu próprio ocaso, um momento crucial no qual as decisões ou circunstâncias prévias condicionam o destino, definindo a urgência no trato das experiências ainda a serem testadas, para que se ultimem as obras factíveis no âmbito de uma vida.

 

Nessa inevitável transição, sobrevém, eventualmente, o desencanto e a solidão, não como um acidente, mas como consequência do desencontro com o tempo: enquanto a natureza segue seu ciclo – frutos que amadurecem, folhas que caem – aquele que não conseguiu ou não soube “construir sua casa” torna-se um errante cósmico, condenado a ocupar o tempo com atividades que apenas preenchem as horas, mas não curam a ausência de sentido. A imagem final do indivíduo caminhando entre folhas mortas é uma metáfora perfeita para uma vida que se esvai nessa toada, sem propósito, entregue aos ventos do destino.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rainer Maria Rilke

(1875-1926)

 

Herbsttag

 

Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.

Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,

und auf den Fluren lass die Winde los.

 

Befiehl den letzten Früchten voll zu sein;

gib ihnen noch zwei südlichere Tage,

dränge sie zur Vollendung hin und jage

die letzte Süße in den schweren Wein.

 

Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.

Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,

wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben

und wird in den Alleen hin und her

unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.

 

Aus: “Das Buch der Bilder” (1902)

 

Outono

(Danilo P. Bednoshey: pintor ucraniano)

 

Dia de outono

 

Senhor: é mais que tempo. O verão foi muito intenso.

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol

e por sobre as pradarias desata os teus ventos.

 

Ordena às últimas frutas que fiquem maduras;

dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,

leva-as à completude e não deixes de pôr

no vinho pesado sua última doçura.

 

Quem não tem casa, não a irá mais construir.

Quem está sozinho, vai ficá-lo ainda mais.

Insone, há de ler, escrever canas torrenciais

e correr as aleias num inquieto ir-e-vir

enquanto o vento carrega as folhas outonais.

 

Em: “O Livro das Imagens” (1902)

 

Referência:

 

RILKE, Rainer Maria. Dia de outono / Herbsttag. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução e introdução de José Paulo Paes. 1. ed., 3. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1993. Em alemão: p. 66; em português: p. 67.

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