Na simbologia da virada
do verão ao outono, o poeta retrata a universalidade por que passa o ser humano
frente ao seu próprio ocaso, um momento crucial no qual as decisões ou
circunstâncias prévias condicionam o destino, definindo a urgência no trato das
experiências ainda a serem testadas, para que se ultimem as obras factíveis no âmbito
de uma vida.
Nessa inevitável
transição, sobrevém, eventualmente, o desencanto e a solidão, não como um
acidente, mas como consequência do desencontro com o tempo: enquanto a natureza
segue seu ciclo – frutos que amadurecem, folhas que caem – aquele que não
conseguiu ou não soube “construir sua casa” torna-se um errante cósmico,
condenado a ocupar o tempo com atividades que apenas preenchem as horas, mas
não curam a ausência de sentido. A imagem final do indivíduo caminhando entre
folhas mortas é uma metáfora perfeita para uma vida que se esvai nessa toada,
sem propósito, entregue aos ventos do destino.
J.A.R. – H.C.
Rainer Maria Rilke
(1875-1926)
Herbsttag
Herr: es ist Zeit.
Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten
auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren
lass die Winde los.
Befiehl den letzten
Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei
südlichere Tage,
dränge sie zur
Vollendung hin und jage
die letzte Süße in
den schweren Wein.
Wer jetzt kein Haus
hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist,
wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen,
lange Briefe schreiben
und wird in den
Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn
die Blätter treiben.
Aus: “Das Buch der
Bilder” (1902)
Outono
(Danilo P. Bednoshey:
pintor ucraniano)
Dia de outono
Senhor: é mais que tempo.
O verão foi muito intenso.
Lança a tua sombra
sobre os relógios de sol
e por sobre as
pradarias desata os teus ventos.
Ordena às últimas
frutas que fiquem maduras;
dá-lhes ainda mais
uns dois dias de calor,
leva-as à completude
e não deixes de pôr
no vinho pesado sua
última doçura.
Quem não tem casa, não
a irá mais construir.
Quem está sozinho,
vai ficá-lo ainda mais.
Insone, há de ler,
escrever canas torrenciais
e correr as aleias
num inquieto ir-e-vir
enquanto o vento
carrega as folhas outonais.
Em: “O Livro das
Imagens” (1902)
Referência:
RILKE, Rainer Maria.
Dia de outono / Herbsttag. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas.
Seleção, tradução e introdução de José Paulo Paes. 1. ed., 3. reimp. São Paulo,
SP: Companhia das Letras, 1993. Em alemão: p. 66; em português: p. 67.
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