Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 12 de maio de 2026

Richard Wilbur - A Escritora

Eis aqui mais um poema tendo o processo criativo como tema, no caso, enquanto forma de vida e de entrega à arte de escrever, metaforizada em uma perigosa viagem marítima levada a efeito com uma carga pesada: nos contratempos da filha e nas lucubrações do pai, muito se resume nas tribulações por que passa um estorninho para sair do aposento em que, voluntária ou involuntariamente, se meteu.

 

Chocando-se contra janelas fechadas – símbolo das barreiras entre a ideia e sua expressão ou entre o artista e o mundo –, experimentando insucessos reiterados e estafantes, o escritor-pássaro vivencia um substancial desgaste físico e emocional, embora sempre deva manter a tenacidade e a coragem para reiniciar a jornada.

 

Ao final da viagem, decerto, alcançará o êxito, alçando voo pela justa janela que se abre a um mundo de epifanias, de triunfos e de alívios por haver conseguido vencer essa “questão de vida ou morte”, ou dito de outro modo, a necessidade premente de se expressar, mesmo que a custo de uma refrega, para manter viva a chama do espírito ou de uma visão de mundo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Richard Wilbur

(1921-2017)

 

The Writer

 

In her room at the prow oft he house

Where light breaks, and the windows are tossed with linden,

My daughter is writing a story.

 

I pause in the stairwell, hearing

From her shut door a commotion of typewriter-keys

Like a chain hauled over a gunwale.

 

Young as she is, the stuff

Of her life is a great cargo, and some of it heavy:

I wish her a lucky passage.

 

But now it is she who pauses,

As if to reject my thought and its easy figure.

A stillness greatens, in which

 

The whole house seems to be thinking,

And then she is at it again with a bunched clamor

Of strokes, and again is silent.

 

I remember the dazed starling

Which was trapped in that very room, two years ago;

How we stole in, lifted a sash

 

And retreated, not to affright it;

And how for a helpless hour, through the crack of the door,

We watched the sleek, wild, dark

 

And iridescent creature

Batter against the brilliance, drop like a glove

To the hard floor, or the desk-top.

 

And wait then, humped and bloody,

For the wits to try it again; and how our spirits

Rose when, suddenly sure,

 

It lifted off from a chair-back,

Beating a smooth course for the right window

And clearing the sill of the world.

 

It is always a matter, my darling,

Of life or death, as I had forgotten. I wish

What I wished you before, but harder.

 

Uma garota escrevendo

(Henriette Browne: pintora francesa)

 

A Escritora

 

Em seu quarto, na proa da casa,

Onde irrompe a luz e as tílias agitam-se às janelas,

Minha filha está escrevendo uma história.

 

Detenho-me no vão da escada a ouvir,

Por trás da porta fechada, uma comoção de teclas,

Como grilhões puxados sobre uma amurada.

 

Por mais jovem que seja, o estofo

De sua vida é um grande fardo, em parte, pesado:

Desejo-lhe uma afortunada travessia.

 

Mas agora é ela que se detém, como se para

Rejeitar-me a lucubração e sua alegoria simplória.

Instala-se um silêncio, durante o qual

 

Toda a casa parece mergulhar em pensamentos,

Até que ela deflagra novo clamor concentrado

de golpes, para logo sobrevir novamente o silêncio.

 

Lembro-me do estorninho atordoado

Que ficou preso naquele mesmo quarto, há dois anos;

Como entramos furtivamente, levantamos uma vidraça

 

E recuamos, para não o assustar; e como,

Durante uma desalentada hora, pela fresta da porta,

Observamos a esguia, selvagem, escura

 

E iridescente criatura ir de encontro

Aos feixes de luz, cair como uma luva

No piso duro ou sobre o tampo da escrivaninha,

 

E ali aguardar, arqueada e ensanguentada, pelo retorno

À lucidez para outra tentativa; e como retomamos

O ânimo quando, subitamente segura,

 

Alçou voo do espaldar de uma cadeira,

Numa rota suave em direção à janela correta,

Logrando transpor o parapeito do mundo.

 

Como me havia esquecido, minha querida,

É sempre uma questão de vida ou morte. Desejo-te

o que sempre antes te desejei, com mais força porém.

 

Referência:

 

WILBUR, Richard. The writer. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 209-210.

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