Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ernesto Cardenal - Salmo 57

Num discurso com tom de súplica e de justiça divina similar ao dos salmos bíblicos, o teólogo e escritor nicaraguense tece ostensivas críticas às estruturas de poder nas sociedades ditas capitalistas – diga-se melhor, às suas instituições político-jurídicas –, vezes sem conta fomentadoras de desigualdades sociais, o que outorga à ode um nítido matiz revolucionário e marxista.

 

A invocação de Deus em tal contexto não é religiosa no sentido tradicional, senão que se a utiliza como um chamado à justiça social e à eliminação radical do status quo das elites, em favor de quem se perpetuam estruturas opressivas, a partir do que se espera o compartilhamento dos meios de produção com o povo, erradicando assim a ideia de “liberdade” como um conceito tão apenas favorável ao capital.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ernesto Cardenal

(1925-2020)

 

Salmo 57

 

Señores defensores de Ley y Orden:

¿Acaso el derecho de ustedes no es clasista?

el Civil para proteger la propiedad privada

el Penal para aplicarlo a las clases dominadas

La libertad de que hablan es la libertad del capital

su “mundo libre” es la libre explotación

Su ley es de fusiles y su orden el de los gorilas

de ustedes es la policía

de ustedes son los jueces

No hay latifundistas ni banqueros en la cárcel

 

Se extravían los burgueses desde el seno materno

tienen prejuicios de clase desde que nacen

como la cascabel nace con sus glándulas venenosas

como el tiburón-tigre nace comedor de gente

 

Oh Dios acaba con el statu quo

arranca los colmillos a los oligarcas

Que se escurran como el agua de los inodoros

se marchiten como la hierba bajo el hierbicida

 

Ellos son los “gusanos” cuando llega la Revolución

No son células del cuerpo sino que son microbios

Abortos del hombre nuevo que hay que botar

Antes de que echen espinas que los arranque el tractor

El pueblo se divertirá en los clubs exclusivos

tomará posesión de las empresas privadas

el justo se alegrará con los Tribunales Populares

Celebraremos en grandes plazas el aniversario de la Revolución

El Dios que existe es el de los proletarios

 

Opressão

(Olga Guarch: artista espanhola)

 

Salmo 57

 

Defensores da Lei e da Ordem:

Porventura não seria classista o vosso Direito?

o Civil para proteger a propriedade privada

o Penal para ser aplicado às classes dominadas?

A liberdade de que falais é a liberdade do capital

o vosso “mundo livre” é o da livre exploração

A vossa lei é a dos fuzis e a vossa ordem é a dos gorilas

vossa é a polícia

vossos são os juízes

Não há latifundiários nem banqueiros na cadeia

 

Desencaminham-se os burgueses desde o seio materno

têm preconceitos de classe desde o nascimento

tal como a cascavel que nasce com suas glândulas venenosas

tal como o tubarão-tigre que nasce comedor de gente

 

Ó Deus, eliminai o status quo

arrancai os caninos da boca dos oligarcas

Que sejam drenados como a água dos vasos sanitários

murchem como a relva sob o efeito do herbicida

 

À chegada da Revolução são eles os “vermes”

Não são células do corpo senão micróbios

Abortos do homem novo que devem ser descartados

Que o trator os arranque antes que criem espinhos

O povo se divertirá nos clubes exclusivos

se apossará das empresas privadas

o justo se alegrará com os Tribunais Populares

Celebraremos o aniversário da Revolução em grandes praças

O Deus que existe é o dos proletários

 

Referência:

 

CARDENAL, Ernesto. Salmo 57. In: __________. Poesía escogida. 1. ed. Barcelona, ES: Barral Editores, abr. 1975. p. 49. (“Insulae Poetarum”)

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