Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Joseph Brodsky - 1º de janeiro de 1965

Brodsky tenta capturar a essência de um momento de transição – o do começo de um novo ano –, tradicionalmente associado à perspectiva de dias melhores, mas que aqui se converte em uma ocasião para refletir sobre a fugacidade da vida e a perda de fé em desenlaces extraordinários, ou mais objetivamente, em acontecimentos mágicos ou milagrosos.

 

Seja como for, o poema não é simplesmente uma espécie de elegia, senão também uma celebração da resiliência humana e da capacidade de encontrar significados, propósitos, fundamentos, mesmo sob a névoa da monotonia, da sobredita desilusão, das expectativas que não se cumprem. Afinal, a vida continua a ser um presente que merece ser vivido com gratidão e honestidade!

 

J.A.R. – H.C.

 

Joseph Brodsky

(1940-1996)

 

1 января 1965 года

 

Волхвы забудут адрес твой.

Не будет звёзд над головой.

И только ветра сиплый вой

расслышишь ты, как встарь.

Ты сбросишь тень с усталых плеч,

задув свечу, пред тем как лечь,

поскольку больше дней, чем свеч

сулит нам календарь.

 

Что это? Грусть? Возможно, грусть.

Напев, знакомый наизусть.

Он повторяется. И пусть.

Пусть повторится впредь.

Пусть он звучит и в смертный час,

как благодарность уст и глаз

тому, что заставляет нас

порою вдаль смотреть.

 

И молча глядя в потолок,

поскольку явно пуст чулок,

поймёшь, что скупость лишь залог

того, что слишком стар.

Что поздно верить чудесам.

И, взгляд подняв свой к небесам,

ты вдруг почувствуешь, что сам

чистосердечный дар.

 

1965 г.

 

Perdida em pensamentos

(Vladimir Volegov: artista russo)

 

1º de janeiro de 1965

 

Os Magos esquecerão teu paradeiro.

Não haverá estrela sobre a tua cabeça.

E apenas o rouco uivar do vento

ouvirás tu, como antigamente.

Arrancarás a sombra dos teus ombros lassos

e apagarás a vela antes de te deitar.

Visto haver dias mais do que candeias,

isto nos promete o calendário.

 

Essa, o que é? Tristeza? Talvez seja.

O refrão, de cor já conhecido.

E daí que ele seja repetido?

Que assim continue, daqui em diante.

Que ressoe também na hora da morte,

qual gratidão dos lábios, das pupilas,

por aquilo que às vezes nos instiga

a lançar para a frente o nosso olhar.

 

E, olhando em silêncio para o teto,

pois ficou claro que a meia está vazia, (*)

compreenderá que a avarícia é garantia

da velhice que, há tempos, já chegou.

Que crer em milagres é tardio.

E, levantando o olhar ao firmamento,

sentirás que tu mesmo és, de repente,

de peito aberto – dado de presente.

 

Janeiro, 1965

 

Nota do Editor:

 

(*). Meia – Nos países que celebram a Epifania (ou Dia de Reis, em 6 de janeiro) é costume as crianças deixarem uma meia para ser enchida por presentes. (BRODSKY, 2019, p. 151)

 

Referência:

 

BRODKSY, Joseph. 1 января 1965 года / 1º de janeiro de 1965. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. In: __________. Poemas de Natal. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Edição bilíngue. 1. ed. Belo Horizonte, MG: Editora Âyiné, nov. 2019. Em russo: p. 16 e 18; em português: p. 17 e 19. 

 

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