Brodsky tenta
capturar a essência de um momento de transição – o do começo de um novo ano –,
tradicionalmente associado à perspectiva de dias melhores, mas que aqui se
converte em uma ocasião para refletir sobre a fugacidade da vida e a perda de
fé em desenlaces extraordinários, ou mais objetivamente, em acontecimentos
mágicos ou milagrosos.
Seja como for, o
poema não é simplesmente uma espécie de elegia, senão também uma celebração da
resiliência humana e da capacidade de encontrar significados, propósitos,
fundamentos, mesmo sob a névoa da monotonia, da sobredita desilusão, das
expectativas que não se cumprem. Afinal, a vida continua a ser um presente que
merece ser vivido com gratidão e honestidade!
J.A.R. – H.C.
Joseph Brodsky
(1940-1996)
1 января 1965 года
Волхвы забудут адрес твой.
Не будет звёзд над головой.
И только ветра сиплый вой
расслышишь ты, как встарь.
Ты сбросишь тень с усталых плеч,
задув свечу, пред тем как лечь,
поскольку больше дней, чем свеч
сулит нам календарь.
Что это? Грусть? Возможно, грусть.
Напев, знакомый наизусть.
Он повторяется. И пусть.
Пусть повторится впредь.
Пусть он звучит и в смертный час,
как благодарность уст и глаз
тому, что заставляет нас
порою вдаль смотреть.
И молча глядя в потолок,
поскольку явно пуст чулок,
поймёшь, что скупость – лишь залог
того, что слишком стар.
Что поздно верить чудесам.
И, взгляд подняв свой к небесам,
ты вдруг почувствуешь, что сам –
чистосердечный дар.
1965 г.
Perdida em
pensamentos
(Vladimir Volegov:
artista russo)
1º de janeiro de 1965
Os Magos esquecerão
teu paradeiro.
Não haverá estrela
sobre a tua cabeça.
E apenas o rouco
uivar do vento
ouvirás tu, como
antigamente.
Arrancarás a sombra
dos teus ombros lassos
e apagarás a vela
antes de te deitar.
Visto haver dias mais
do que candeias,
isto nos promete o
calendário.
Essa, o que é?
Tristeza? Talvez seja.
O refrão, de cor já
conhecido.
E daí que ele seja
repetido?
Que assim continue,
daqui em diante.
Que ressoe também na
hora da morte,
qual gratidão dos
lábios, das pupilas,
por aquilo que às
vezes nos instiga
a lançar para a
frente o nosso olhar.
E, olhando em
silêncio para o teto,
pois ficou claro que
a meia está vazia, (*)
compreenderá que a
avarícia é garantia
da velhice que, há
tempos, já chegou.
Que crer em milagres
é tardio.
E, levantando o olhar
ao firmamento,
sentirás que tu mesmo
és, de repente,
de peito aberto –
dado de presente.
Janeiro, 1965
Nota do Editor:
(*). Meia – Nos países que celebram a Epifania (ou Dia de Reis, em 6 de
janeiro) é costume as crianças deixarem uma meia para ser enchida por
presentes. (BRODSKY, 2019, p. 151)
Referência:
BRODKSY, Joseph. 1 января 1965 года / 1º de janeiro de 1965. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. In: __________. Poemas de Natal. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Edição bilíngue. 1. ed. Belo Horizonte, MG: Editora Âyiné, nov. 2019. Em russo: p. 16 e 18; em português: p. 17 e 19.



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