Com aquele seu estilo
familiar, a mesclar o místico ao terrenal, a poetisa mineira nos fala de sua persistência
no ofício de escritora, bastião que a mantém segura contra as investidas da
infelicidade e a lhe permitir seguir na busca de um caminho que lhe faça
sentido, estabelecendo conexões como que orgânicas ou naturais com o mundo ao
redor.
A fé, um tema
recorrente na obra de Prado, reflete-se no poema por meio de um contraste entre
o grandioso – Deus, ou mesmo a morte – e o modesto – os pormenores quotidianos:
o calendário na parede se converte num símbolo dessa espiritualidade doméstica
e simples, ao infundir, por meio de seus registros, luzes sobre as veredas mais
escuras – luas novas sobre promissores (re)começos.
J.A.R. – H.C.
Adélia Prado
(n. 1935)
Folhinha
A morte do escritor
não se quer resolver
dentro de mim.
Mas não tenho gosto
na infelicidade
e por isso busco meu
caminho
como um verme sabe do
seu, dentro da terra.
Muitas coisas me
valem quando Deus fica estranho
e do que é mínimo, às
vezes,
vem o desejado
consolo.
Informativo Popular
Coração de Jesus
é o nome de um
calendário de parede.
Abençoai este lar está escrito nele.
O coração sangra na
estampa,
mas o rosto é doce,
próprio a enternecer
as mulheres da
cozinha, feito eu.
Toquem mal o piano,
vou me deliciar
– nada é mesmo
perfeito –,
uma gota de mel desce
em minha garganta.
No dia 8 de janeiro
está escrito na folhinha:
A fé guiou os magos – lua nova amanhã.
Lua nova,
que nome mais bonito
pra um consolo.
Em: “O coração
disparado” (1978)
Em frente ao
calendário
(Arte digital:
autoria desconhecida)
Referência:
PRADO, Adélia.
Folhinha. In: __________. Poesia reunida. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ:
Record, 2015. p. 123.



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