Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Adélia Prado - Folhinha

Com aquele seu estilo familiar, a mesclar o místico ao terrenal, a poetisa mineira nos fala de sua persistência no ofício de escritora, bastião que a mantém segura contra as investidas da infelicidade e a lhe permitir seguir na busca de um caminho que lhe faça sentido, estabelecendo conexões como que orgânicas ou naturais com o mundo ao redor.

 

A fé, um tema recorrente na obra de Prado, reflete-se no poema por meio de um contraste entre o grandioso – Deus, ou mesmo a morte – e o modesto – os pormenores quotidianos: o calendário na parede se converte num símbolo dessa espiritualidade doméstica e simples, ao infundir, por meio de seus registros, luzes sobre as veredas mais escuras – luas novas sobre promissores (re)começos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adélia Prado

(n. 1935)

 

Folhinha

 

A morte do escritor

não se quer resolver dentro de mim.

Mas não tenho gosto na infelicidade

e por isso busco meu caminho

como um verme sabe do seu, dentro da terra.

Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho

e do que é mínimo, às vezes,

vem o desejado consolo.

Informativo Popular Coração de Jesus

é o nome de um calendário de parede.

Abençoai este lar está escrito nele.

O coração sangra na estampa,

mas o rosto é doce, próprio a enternecer

as mulheres da cozinha, feito eu.

Toquem mal o piano, vou me deliciar

– nada é mesmo perfeito –,

uma gota de mel desce em minha garganta.

No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:

A fé guiou os magos – lua nova amanhã.

Lua nova,

que nome mais bonito pra um consolo.

 

Em: “O coração disparado” (1978)

 

Em frente ao calendário

(Arte digital: autoria desconhecida)

 

Referência:

 

PRADO, Adélia. Folhinha. In: __________. Poesia reunida. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2015. p. 123.

  

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