Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Herberto Helder - O poema (II)

Nesta seção de “O poema” – a segunda em um rol de sete –, o poeta português, em sua tentativa de capturar a essência do objeto de seu ofício, recorre a imagens surrealistas e símbolos arquetípicos para trazer a campo a força criadora e destruidora de que ele se reveste, uma vez que autêntico fenômeno transgressor, capaz de conjugar luzes e sombras, vida e morte, em uma dança de eterno retorno.

 

Há, entre os sujeitos do poema, um misto de êxtase e melancolia no cerne mesmo desse ritual sagrado, efeito ressonante do peso do ato criador, sempre resistente à captura do inefável por intermédio das palavras – daí, muitas vezes, as cifras hieroglíficas, crípticas a toda prova –, mas que, quando franqueado, abre as portas para a pureza da arte, liberta de toda a corrupção terrena.

 

J.A.R. – H.C.

 

Herberto Helder

(1930-2015)

 

O poema (II)

 

A palavra erguia-se como um candelabro,

a voz ardia como um inesperado campo de giestas.

E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor

e a tristeza divina. Quando os arbustos

eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés

da terra as pedras cantavam e os mitos davam

a forma das coisas.

Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas

e em frente ao povo íamos cantando

a fábula e o próprio rosto do milagre.

Quem se assenta à nossa mesa? – dizíamos. – Quem

sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?

 

Nada existe que não seja inocente, e o hálito

perpassa à flor dos lábios,

a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável

ao primeiro sorriso. Toda a casa

acaba a noite, cria a auréola

em torno do objecto, enche cada instante

de um poder obscuro.

A delicada taça partia-se nas mãos – sangue:

um sinal, um símbolo. E cantar

era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta

loucura. Cantar era uma razão

de morte e de alegria.

 

Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera

da luz, ou na ressonância e volúpia

do tempo. E a mão procurava o punhal,

a boca beijava a laje nua. Do braço divino

sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas

ou no coração da sementeira.

 

E era então o fogo aquilo a que o beijo,

em sua graça, firmemente aspirava.

Nenhuma vida tanto se gastou

que não seja visitada, nenhum deus

é tão grande que se não perca na substância

da sombra. – Uma flor e um grito,

um copo e um breve minuto, ou a aurora

cortando o peito, ou o primeiro respirar

de um pensamento.

 

Cantar onde a mão nos tocou,

o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.

Cantar na mesa, na árvore

sorvida pelo êxtase.

Cantar sobre o corpo da morte, pedra

a pedra, chama a chama – erguido,

 amado,

 aprendido.

 

Em: “A colher na boca” (1961)

 

Toda a dor da existência

(Sebastian Moń: artista polonês)

 

Referência:

 

HELDER, Herberto. O poema (II). In: __________. Poemas completos. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Tinta-da-china Brasil, 2016. p. 28-29. (“Grandes Escritores Portugueses”)

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