Nesta seção de “O
poema” – a segunda em um rol de sete –, o poeta português, em sua tentativa de
capturar a essência do objeto de seu ofício, recorre a imagens surrealistas e
símbolos arquetípicos para trazer a campo a força criadora e destruidora de que
ele se reveste, uma vez que autêntico fenômeno transgressor, capaz de conjugar
luzes e sombras, vida e morte, em uma dança de eterno retorno.
Há, entre os sujeitos
do poema, um misto de êxtase e melancolia no cerne mesmo desse ritual sagrado, efeito
ressonante do peso do ato criador, sempre resistente à captura do inefável por intermédio
das palavras – daí, muitas vezes, as cifras hieroglíficas, crípticas a toda
prova –, mas que, quando franqueado, abre as portas para a pureza da arte, liberta
de toda a corrupção terrena.
J.A.R. – H.C.
Herberto Helder
(1930-2015)
O poema (II)
A palavra erguia-se
como um candelabro,
a voz ardia como um
inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em
nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina.
Quando os arbustos
eram bichos
iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras
cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o
espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo
íamos cantando
a fábula e o próprio
rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa
mesa? – dizíamos. – Quem
sobre a mesa coloca
um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não
seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos
lábios,
a força da memória
deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso.
Toda a casa
acaba a noite, cria a
auréola
em torno do objecto,
enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça
partia-se nas mãos – sangue:
um sinal, um símbolo.
E cantar
era conceber uma
estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era
uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as
pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na
ressonância e volúpia
do tempo. E a mão
procurava o punhal,
a boca beijava a laje
nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o
archote corria sobre as águas
ou no coração da
sementeira.
E era então o fogo
aquilo a que o beijo,
em sua graça,
firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se
gastou
que não seja
visitada, nenhum deus
é tão grande que se
não perca na substância
da sombra. – Uma flor
e um grito,
um copo e um breve
minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou
o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos
tocou,
o ombro se acendeu,
onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na
árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo
da morte, pedra
a pedra, chama a
chama – erguido,
amado,
aprendido.
Em: “A colher na
boca” (1961)
Toda a dor da
existência
(Sebastian Moń: artista polonês)
Referência:
HELDER, Herberto. O
poema (II). In: __________. Poemas completos. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ:
Tinta-da-china Brasil, 2016. p. 28-29. (“Grandes Escritores Portugueses”)
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