Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 4 de janeiro de 2026

Garrison Keillor - Janeiro

Este poema de Garrison, entrecruzado por elementos ao mesmo tempo sombrios e edificantes, pode ser lido como uma reflexão do falante sobre a passagem do tempo, os efeitos de sua ceifa inapelável, suavizada pela presença luminosa e inspiradora da pessoa amada, trazendo esperança para o novo ano, num autêntico ato de fé e de disposição resiliente frente ao desconhecido.

 

O poeta contrapõe ao peso da idade e à inevitabilidade da morte os antídotos do amor, da cumplicidade e do desfrute de uma vida plena, apesar das cicatrizes: a “dança” e a “ária” reportados nos derradeiros versos do soneto evocam arte e celebração, no exato momento em que todos desejamos um futuro melhor – a virada do Ano-Novo –, a despeito de que somente em retrospectiva sejamos capazes de compreender o que realmente importa de tudo por que passamos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Garrison Keillor

(n. 1942)

 

January

 

Another year gone and the old man with the scythe

Is mowing closer. He hasn’t been subtle, has he.

Too many good people gone, and I could sit and cry

For them – except that you look exceptionally snazzy

And sexy despite the miles on your odometer,

As if you have a few more aces up your sleeve.

Maybe you were born under a lucky comet or

Maybe it’s just the delirium of New Year’s Eve.

I gaze in your face and take your hand – you’re

Positively glowing. Maybe we’ve been sorry a

Long enough time and now we get some grandeur

And do our dance and sing our aria.

May the New Year bring us before it has flown

All we would have wished for had we only known.

 

Dança no campo

(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)

 

Janeiro

 

Mais um ano se passou e o velho com a foice

Está segando mais perto. Ele não tem sido sutil, pois não?

Muitas pessoas boas se foram, e poderia agora sentar e chorar

Por elas – se não fosse por teu porte excepcionalmente elegante

E sexy, apesar da quilometragem em teu hodômetro,

Como se tivesses alguns trunfos a mais sob a manga.

Talvez tenhas nascido sob os auspícios de um cometa da sorte

Ou quem sabe não se trate de um delírio da noite de Ano-Novo.

Olho para o teu rosto e pego tua mão – estás

Positivamente radiante. Talvez tenhamos estado pesarosos

Por tempo bastante e agora nos alcance alguma grandeza:

Coreografemos nossa dança, cantemos nossa ária.

Que o Ano Novo nos traga, antes que se esvaia,

Tudo o que desejaríamos, se o soubéssemos.

 

Referência:

 

KEILLOR, Garrison. January. In: __________. 77 love sonnets. St. Paul (MN): Common Good Books, 2009. p. 107.

 

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